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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Culinária de Lisboa #35 - Santola fria

Querida Mô,


Restauradores, Setembro de 1975
(Fonte: http://abril-de-novo.blogspot.com)


Naquele quente de mais de uma maneira Verão em que a menina daqui se foi, Lisboa estava efervescente. Se o país ebulia, na sua capital destilava-se uma anárquica loucura que parecia colar-se a tudo. Manifestações para todos os gostos, reivindicando umas, protestando outras, solidarizando-se as demais. Papel por todo o lado, nas paredes em policromados cartazes, jacentes no chão dos corredores do Metro, frases e frases de palavras irregularmente impressas pela má qualidade do stencil. Murais no amarelo e vermelho oficiosamente oficiais, frases imperiosas a par de ironias sibilantes na caligrafia má do pincel. Muita côr, muita excitação sob um céu pristino e um calor abrasador. Na televisão, toda esta paixão reproduzia-se na força dos discursos e na natureza dos textos jornalísticos, que só o preto e branco amenizava. Vibravam os cidadãos, uns de esperança, outros de receio, outros por contágio.


Nestas sezões, de bolsos cheios pela recém-chegada riqueza trazida pelos aumentos salariais, os operários da cintura industrial enchiam as marisqueiras da Baixa em busca do luxo culinário cobiçado toda uma vida. Com a anterior clientela emigrada ou sem tempo para descanso(empenhada que passou a estar na luta política contra o apetite hegemónico dos extremos), apropriaram-se dos espaços, transformando-se nos seus novos senhores, logo originando histórias e anedotas rapidamente passadas de boca em boca, para escândalo e menosprezo da classe média, perpetuamente no meio, perpetuamente a ver a banda passar.


Terá sido por isso que a minha relação com essas casas ficou para sempre comprometida. Lugares de muita parra e pouca uva, de matérias primas fortemente sobrestimadas, cozinhadas com desleixo para uma plateia sem cultura gastronómica, deslumbrada com o vermelho das cascas, a profusão de pinças e patas e a sua capacidade para pagar uma conta com tantos zeros. A devoção passada a vulgaridade. Uma lástima.

SANTOLA FRIA

1 santola; 1 dl azeite; 3 ovos cozidos; 1 c. chá mostarda; 2 c. sopa vinagre; 1 cebola pequena; 1 ramo salsa; pipri-piri; sal

Lava-se e esfrega-se a casca da santola com uma escova. Põe-se a cozer em água a ferver, temperada com bastante sal, durante meia-hora. Tira-se da água e deixa-se arrefecer.

Põe-se a santola de barriga para cima, puxa-se a cauda para a quebrar, a qual traz agarrada uma tripa escura. Tiram-se patas e pinças. Escorre-se o líquido da casca para uma tigela, mistura-se com uma gema cozida e bate-s ebem para engrossar. Junatm-ser os ovos picados, azeite, mostarda, vinagre, cebola e salsa picadas e a carne das pinças e patas cortadas aos bocados. Tempesa-se com sal e piri-piri. Lava-se a carapaça e deita-se a mistura que se serve sobre uma folha de alface.

terça-feira, 15 de março de 2011

Tarte de Camarão

Uma coisa levezinha, para quem já está farto de listas de gastronomia concelhia...

1ª pré-declaração: Gosto muito de receitas feitas com massa, seja ela folhada ou areada, filo ou quebrada.
2ª pré-declaração: Normalmente não tenho tempo para fazer a massa.
3ª pré-declaração: Compro-a feita e uso-a. Antes isso que nada...

E aqui vai:

1. Refogar em azeite com um pouco de água uma cebola. Quando translúcida, acrescentar um punhado de camarões, salgar e pimentar e acrescentar pitadas do que achar melhor (caril, noz moscada por exemplo).

2. Acrescentar molho branco em quantidade suficiente para o volume necessário para encher a tarteira, deixar engrossar um pouco com o lume muito brando e terminar com natas para bater. Cuidado com as porções para não ficar muito líquido. Ser liberal com salsa picada.

4. Fora do lume, acrescentar um ovo bem batido e mexer bem.

3. Forrar a tarteira com a massa escolhida (neste caso foi folhada), picar e encher com o recheio. Levar imediatamente ao forno pré-aquecido a 180ºC. Retirar quando dourada.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ceia de Natal

1. O peru, que veio no fim, quando - oh bem dita dieta de dois meses que me encolheu o estômago!... - já só me apetecia aboberar no sofá a pensar nos mistérios da estação.

Uma primeira entaladela em água com uma cebola e duas cenouras...


- e assim se faz a canja!

O recheio: castanhas cozidas, caarne picada frita num refogado de cebola, salsa e cebolinho

Uma pasta de bola e salsa e sal como primeiro barramento e outra de azeite, manteiga e massa de pimentão para cobrir. Fatias de gordura de porco para ir derretendo com o calor
Cinco horas num forno a mais ou menos 160º (o meu forno é dos que trabalham a sentimento; estreei um termómetro hoje mas, mesmo assim, foi difícil de manter a temperatura estável). E ficou tenro, quase suculento. Simpático.

2. A torta de camarão.

O recheio: camarões brevemente cozidos, um molho branco espesso, cebolinho e salsa frisada

A massa da torta: 5 claras batidas em castelo...

... são calmamente adicionadas às 5 gemas batidas até engrossar, com 75 gr de farinha (misturar alternadamente, com cuidado para não desfazer). A massa é levada ao forno em tabuleiro rectangular, untado, coberto com folha de papel vegetal untado, 10 minutos até cozer mas sem deixar secar para não partir ao enrolar.
Depois, é o que seria de esperar: a massa virada com cuidado para cima de um pano, barrada com o recheio e enrolada com cuidado.

E aqui está. Servido com uma salada verde com uma emulsão de azeite generoso, umas gotas de balsâmico e pontas de cebolinho
3. Boquerones, queijos e banderillas. Combinam, não combinam, fazem parte da tradição? Se não é nestes dias de festa que toleramos os nossos desejos, quando é que é?






domingo, 14 de novembro de 2010

Na cozinha do Assinatura #1 - Lavagante em sopa de castanhas

(Truque nº1: para manter os lombos bem direitos sem encaracolar, há que empalar os bichinhos...
Disgusting, mas a alternativa é não os comer...)

1. Levar a cozer os lavagantes em água, com uma cenoura, um talo de alho francês e uns ramos de tomilho
(não é preciso descascar a cenoura - basta lavá-la bem)

2. Colocar a cozer em água com alho francês picado e azeite
as castanhas descascadas (podem ser congeladas)

3. Quando cozida, colocá-la em água com gelo para parar a cozedura


4. Retirar as ovas (se as houver; ou melhor, comprar fêmeas com ovas).
Secá-las no forno a baixa temperatura.

5. Retirar as patas e a carapaça - obterá um lombo perfeito, como este

6. Retirar o máximo de carne das pinças e restante carapaça

7. Sobrepor quatro folhas de película (quer-se uma peça resistente).
Sobre ela colocar uma mistura de miolo de pão (quinoa neste caso, mas pode ser broa de milho, por exemplo)
com a carne retirada das pinças, tomilho, manteiga de ovelha, sal e pimenta

8. Ir enrolando aos poucos, dando a forma de uma salsicha; apertar com força
para compactar a mistura

9. O formato final deve ser este

10. Cortar os lombos em círculos com cerca de 5 cm de espessura; levá-los ao forno por 10 minutos.
Cortar a "salsicha" em círculos com as mesmas dimensões e fritá-los suavemente em manteiga clarificada
(não virar para evitar que se desagreguem)
11. Saltear cogumelos "asas de morcego" ou "trompetas da morte" em manteiga clarificada, chalotas e tomilho


12. Com a varinha, reduzir as castanhas a puré.
Empratar, colocando como base os cogumelos, depois o disco do recheio e, finalmente, o lombo por cima.
Envolver com o caldo de castanhas.

13. Juntar as ovas secas e uma redução de vinho do Porto.
Decorar com ervas (no caso rebentos de coentro)

14. Deliciar-se

SOPA DE CASTANHAS COM ASAS DE MORCEGO E LAVAGANTE
(Chef Henrique Mouro)

Ingredientes para 4
600 gr de castanhas
8 dl de caldo de galinha
200 gr de lavagante
200 gr de cogumelos “asas de morcego”
2 chalotas
1 cebola
1 dente de alho
100 gr de alho porro
Tomilho
80 gr de manteiga de ovelha
60 gr de broa de milho
erva doce
Sal
Pimenta

Preparação
Suar a cebola, alho-porro e o dente de alho num pouco de manteiga, adicionar as castanhas já peladas e molhar com o caldo de galinha e deixar cozinhar durante 40 minutos. Temperar com sal e pimenta e com erva doce. Passar a creme com ajuda de uma varinha mágica.
Escaldar o lavagante em agua e sal, descascar e cortar em medalhões, aproveitando o “coral” junto à cabeça para trabalhar com a broa de milho esfarelada,
Manteiga de ovelha, tomilho, sal e pimenta. Suar os medalhões do lavagante num pouco de manteiga de ovelha.
Saltear os cogumelos com chalotas picadas, manteiga e tomilho.

domingo, 24 de outubro de 2010

Camarão na Abóbora à moda de Olinda


JERIMUM FREVO: 

15 Camarões pré-cozidos e descascados
4 Lagostas pré-cozidas e descascadas
2 Xícaras de calda de maracujá
½ Cebola cortada em tirinhas
1 Colher (sopa) manteiga
1 Colher (sopa) azeite de oliva
1 Colher (sopa) mostarda
1 Colher (chá) tempera tudo
10 Frutos de zimbro
1 Colher (chá) endro
1 Jerimum jacarezinho de 1,½ kg
1 Colher (sopa) requeijão

Dore a cebola na manteiga e no azeite, acrescente a calda de maracujá com um pouco de água, tempere com o restante dos ingredientes, coloque os camarões e as lagostas, deixe cozinhar um pouco e engrosse com a maizena diluída na água, reserve. Abra o jerimum com um tampo, retire toda a semente, lave a casca com sabão e água, coloque no forno em um tabuleiro com água, deixe cozinhar entre 30 e 40 minutos. Depois do jerimum cozinhado, recheie com o creme de maracujá já preparado e finalize com a colher de requeijão.

Restaurante Oficina do Sabor,
Rua do Amparo, 335, Cidade Alta, Olinda - PE, Brasil

domingo, 26 de setembro de 2010

Um jantar apuliano (II) - Riso e cozze

Depois dos filetes de peixe macerados em limão, o aquecer dos motores com este arroz com mexilhões no forno. A receita original inclui batatas mas, desgraçadamente, falhou o ingrediente; de tão comum na despensa toda a gente achou que existia, para se verificar que tinha acabado. Fica para a próxima...



1. Mexilhoes: 1 kg. Lavam-se muito bem (a teoria indica raspar bem as cascas), colocam-se numa panela com alho e coentros picados e umas lágrimas (copiosas...) de azeite. Deixam-se abrir no calor, tapados. Tempo? Bom, o tempo necessário para, aparentemente estarem todos abertos...

Retiram-se, descartam-se os que ficaram fechados e as cascas (que se separam dos animaizinhos). Atenção: o caldo que se libertou durante a cozedura, é para manter! Há que o coar cuidadosamente (porque a areia dos bivalves veio junta) - experimente um coador com um pano fino para a operação (papel de filtro também dá mas quem é que guardou o papel de filtro usado nas experiências do liceu? Pronto, compre-se o papel de filtro para esta experiência...).

E aqui está o caldo na fotografia, à espera de utilização!


Num pirex ou refractário, colocar uma cama de cebolas cortadas às rodelas. Aqui utilizei um mix das variedades branca e roxa, mas pode-se recorrer às usuais - aconselho tudo menos aquelas coisas que nos vêm de Espanha ou de França (ou de alguma pedreira...), duras como... chifres.

Deitem-se os mexilhões, bem distribuídos por toda a superfície.

3. Chegou a hora do arroz. Nota prévia: face à ausência de referência na receita original, do tipo de arroz a empregar (o arborio ou o carnaroli não pareciam plausíveis para um arroz que se queria seco) escolheu-se o agulha um bom compromisso entre o carolino (melhor para "malandrinhos") e o basmati.

Acrescente-se assim o arroz e o caldo na seguinte proporção: uma taça de sopa de arroz para três taças de caldo (duas e meia pareceu arriscado para o forno, mas pode-se tentar, mantendo sempre o olho no forno, caso seque antes de tempo). Por "caldo" entenda-se todo o líquido extraído dos mexilhões complementado por água.

Adicione-se então meio ramo de coentros picados (tendo "ramo" a dimensão daqueles vendidos agora nas g.s.), cogumelos de paris cortados em quartos e, para quem é corajoso, uma malagueta em tiras, totalmente limpa de sementes (mesmo assim houve algumas queixas quanto ao picante).

(Antes que comecem as perguntas: na foto está em fundo o resultado desta operação; a embalagem de queijo é só para dar ambiente e uma tentativa encapotada de demonstrar as virtudes do product placing neste blog, na esperança de atrair investidores institucionais - leiam-se agências de publicidade...)


4. Vai a forno quente (190/200ºC) durante... bom é melhor estar com atenção e escrever-me depois a dizer com quantos minutos resultou. O forno eléctrico onde este se fez é um tricky one e a cozedura durou mais do que o "normal". E entretanto fomos provando as outras coisas pelo que... All in all, no final foi um sucesso tão grande que mesmo aqueles que já tinham acabado, voltaram para mais uma perninha... no arroz.

(Nota de desculpas: aos italianos, por ter incluído tanto anglicismo num post dedicado à cozinha regional itallina... É da internet.)

domingo, 12 de setembro de 2010

Comunidad de Madrid - Produtos e Regiões Protegidas

Algo me diz que a criação da Comunidad de Madrid foi em simultâneo uma resposta ao desejo de autonomia catalão e uma manifestação do carácter centralizador da capital. Resposta a Barcelona porque também reivindica para si uma parte do território espanhol; manifestação de centralidade porque se coloca como região e não como sede de uma região com outro nome (no caso Castilla-La Mancha).

Para quem está de fora, ver assim transformada uma cidade em região parece bizarro, principalmente se essa cidade que sempre foi a corporização de uma Espanha una, se converte em mais um dos retalhos autonómicos em que o país se transformou.

País que cada vez se parece menos com uma Nação. Enquanto existir um cimento comum - o Rei, la Roja... - ele parece aguentar-se. Durante quanto tempo resistirá? E depois?

Bom, reflexões deste estranho estrangeiro à parte, Madrid é uma cidade que sabe saber bem.

Ainda que tomada por alguns caça-níqueis alimentares para turistas, a Plaza Mayor

(daqui)
é um belíssimo ponto de começo para ir de tapas, esse desporto mais espanhol que os toros da Osborne que povoavam os horizontes da meseta.

Sugiro (porque me dei bem, levado por gente amiga e porque não conheço mais nenhum) começar nos bares situados no canto que se vê na fotografia e depois seguir para a Cava de San Miguel que lhe está adjunta do lado exterior, para os Mesóns da Tortilla e do Jamon e vizinhos enquanto se tiver capacidade...

Estes são algumas das coisas que é imprescindível experimentar (mas há tantas mais!...) acompanhadas de cañas, copas de viño ou de sangria:

Patatas bravas (fonte-wiki)


Gambas al ajillo (fonte-wiki)
Gambas en gabardina (fonte-wiki)
Tortilla de patatas (fonte-wiki)
Chorizo (fonte-wiki)


Banderillas (fonte-wiki)
Ración de calamares (fonte-wiki)
Caracoles a madrileña (fonte-wiki)
E depois há os pratos típicos,

Cocido Madrileño (fonte-wiki)
Callos a la mmadrileña (fonte-wiki)
De restaurantes está a cidade cheia, dos centenários

Restaurante Sobrino de Botín. Segundo o Guiness, o mais antigo do mundo, fundado em 1725.
aos ultracontemporâneos

La Terraza del Casino. Chef Paco Roncero, com consultoria de (who else?) Ferran Adriá
Ler mais aqui

E será sempre bom, digerir tudo isto com um passeio pelos jardins de El Pardo


pelos jardins de Aranjuez

(fonte ojodigital.com)
ou pelos corredores da biblioteca do El Escorial

(fonte-wiki)
No intervalo de tudo isto, olhar para a lista seguinte e pensar onde comprar,


CARNES FRESCAS Y DESPOJOS
CARNE DE ÁVILA ; CARNE DE LA SIERRA DEL GUADARRAMA


A estas denominações de origem acrescentam-se outros alimentos que alcançaram notoriedade no resto do país como o queijo de Campo Real, os alhos de Chinchón, o requeijão de Miraflores de la Sierra, os melões de Villaconejos, o grão de Navalcarnero, os doces dos conventos de Alcalá de Henares e os morangos e espargos de Aranjuez.


TRADICIONALES GAMBAS EN GABARDINA


INGREDIENTES
Gambas médias ; Cerveja ; 2 gemas de ovo ; Farinha ; Açafrão : Sal ; Fermento ; Azeite 


PREPARAÇÂO
Pelam-se as gambas com cuidado, deixando a cauda. Com as cabeças, fazer um caldo com pouca água, uma folha pequena de louro e uma pitada de sal, fervendo 15 minutos. Coar e deixar reduzir até que o líquido fique untuoso. Reservar.
Fazer uma pasta: sobre as gemas acrescente-se uma colher de sobremesa do fermento, sal e açafrão e logo ir acrescentando a farinha e a cerveja morna progressivamente. No fim deve ficar bem homogénea e espessa como um molho branco. Deixar repousar pelo menos uma hora.
Passar as gambas bem secas nesta massa e fritar em óleo a alta temperatura e imediatamente. Colocar em papel absorvente,


(tirado daqui)