quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Meia Lua em Lisboa

Longe vão os tempos da griffe, com os almoços cheios de mediatizados e os jantares muito in. Longe também um dos dois sócios que "fizeram" a casa, António Cardoso Ribeiro, há alguns anos desligado do projecto e a comandar outra nau (La Spianata). Longe a espaços também o agora único responsável, o chef Michele Guerrieri, com uma cada vez melhor sucedida carreira em Nova Iorque com a sua casa de sanduiches slow-food-italisnyc.

Apesar dos anos passados sobre a abertura (1998) e do afastamento das bocas do mundo, o Mezzaluna continua de porta aberta, na que será (foi?) a mais italiana das artérias lisboetas, em convívio com a Trattoria, o La Campania (e mais em baixo, o La Brusketa).

Casa cheia no jantar de Sábado - afinal ausência de buzz não implica menor fervor... -  com direito a ministro discreto (que os anos não são os dourados noventa).

Serviço atento e correcto.

Experimentados, como entrada o Prosciutto sott'olio com mozzarela fresca e folhas de courgette salteadas -  


bem apresentado, o mozza um bocadinho entradote nos dias, o presunto muito bom.

Como principais, o lavagante com spaghetti al nero di sepia - especial do dia - também cumpridor (pena dar uma foto tão pobre),


e o Tagliatelle com Tiras de Pato Assado, Cebola Caramelizada, Azeitonas Pretas, Redução de Vinho Branco, Cobertos com Bacon Crocante.


Saborosos, fora do caminho batido, mas um caminho seguro.

Para acompanhar, este Dona Matilde sugerido, um bocadinho over-priced, mas que não deslustrou.


Que dizer desta Lua? Que já passou os ardores da juventude, a descoberta da juventude, as promessas da juventude mas que, na calmaria da meia-idade, ainda sabe oferecer um porto seguro para quem não gosta de arriscar gastronomicamente ou procura grandes emoções. Pessoalmente, pelo valor pago, prefiro mais entusiasmo.

Preços: $$$ (>30€)

Rua Artilharia Um, 16, Lisboa
Tel. : 21 387 99 44

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Natal, Guia de Compras - II

Numa reincidência de Natais, a Mercearia Criativa aí está pujante no seu conceito original: uma loja que é de bairro mas que é do mundo, o nosso mundo rural, cosmopolitizado pelos cada vez mais visíveis produtores de nova geração.

(Fonte: Mercearia Criativa)
A Mercearia é a garrafeira do Carlos e as charcutarias, queijos e demais bombons salgados da Susana e mais os petiscos que se podem degustar cá fora, na esplanada, enquanto se vê quem passa ou se lê qualquer coisinha que não seja do Guerra Junqueiro (pode ser do Junqueiro; é só má vontade minha).

Tem uma acção gastrocultural cada vez mais relevante, com os seus lançamentos gastronómicos e enófilas provas. Produtos de marca própria - dos quais destaco, sem sombra de dúvida, os pickles de batata doce -, também os há.

(Fonte: Mercearia Criativa)
E workshops vários, bem temperados.



No Natal há encomendas, do pão-de-ló de Ovar ao bolo-rainha; da tarte às broas de amêndoa e de noz; do pão da Maçussa;  de ostras do Sado; dos croquetes de pato às empadas e bolinhas de leitão da Bairrada - só até dia 22 de Dezembro, para garantir stocks e prevenir excessos. Há os cabazes que o ano passado foram sucesso de vendas e prendas e este ano vão pela mesma, mais diversificados ainda.

Por tudo isto e muito mais que ficou por dizer - já me esquecia da extrema simpatia da Susana, do Carlos e de todo o staff - a MC é uma paragem altamente recomendável, de Janeiro,1 a Dezembro,31. Agora então...











Av. Guerra Junqueiro, 4 A, 1000-167 Lisboa
Telefone: 218 485 198
http://www.merceariacriativa.com
http://twitter.com/MerceariaMC
2ª- Sab: 10:00-20:00

Natal, guia de vendas - I

Começo por uma neófita nestas andanças das Festas, inaugurada que foi já este ano pelos idos de Maio: a Bagos & Especiarias (para os amigos; o nome oficial é Grapes & Spices), loja que é de "Vinhos, Azeites e Presuntos" & gulodices imensas, coisas que nos encantam a vista e papilam a nossa boca em antevisão pela degustação.

Fica a meio caminho da rua do Alecrim em Lisboa, entre aquela senhora nua que se esqueceu em casa do manto diáfano da fantasia e o Duque da Terceira que, indiferente, nos volta as costas e olha o rio e quase em frente à última obra arquitectónica em Lisboa do arquitecto Siza Vieira.

Tem uma sala no fundo onde podemos descansar, a entreter um chá simpático, das agruras das compras ou da provação que é subir e descer o Chiado, enquanto discutimos com a simpática Ana virtudes e características de todas as tentações que nos acompanharam desde a porta.

Produtos maioritariamente nacionais que é como deve ser - e quanta coisa apelativa já se faz por aqui!







Use-se e abuse-se.

Rua do Alecrim, nº 49, 1200-014 Lisboa
Telefone: 918865169
www.facebook.com/GrapesAndSpices

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Saudades

Quem morre fica pleno de qualidades porque o sentimento de perda que nos atinge faz por realçar as memórias reconfortantes, enviando para o esquecimento tudo o que de menos positivo aconteceu. É por isso que não gosto muito de elogios a posteriori: porque (quando são sentidos e não convenientes) sãp mais o nosso sentimento de culpa a desculpar-se pelas palavras não ditas a tempo do que um retrato equilibrado de quem partiu. Exagero e desmesura que desfocam a figura e fazem soar tudo um bocadinho a falso.

Prefiro assim falar da influência que me causou quem partiu. Os valores e os gestos, as palavras ou o canto. A presença.



Cesária Évora foi essa presença em muitos momentos, a consubstanciação de uma saudade que não era fado mas também continha o fado, uma dolência que também nos corre na alma.

E foi-me também um exemplo de vida, ao ter a resiliência necessária para resistir à adversidade e a sabedoria imprescindível para resistir às tentações do sucesso.

Dizer que Cesária é Cabo Verde, será, mais do que um lugar comum, uma redundância.

Para a minha memória e vivência, ainda mais Cabo Verde é a cachupa, prato das longas tardes, regadas a amigos e muito, muito boas ondas. Boa onda.

Ligo aqui as duas numa ponte que já é de saudade, de coisas que não retornam, ficando vivas apenas na nossa memória.

Não sei se esta é a mais correcta versão, mas é a de um homem muito correcto a quem a culinária portuguesa deve um dos seus grandes registos - Olleboma, António M. de Oliveira Bello.

"Para se fazer a cachupa começa-se por se preparar milho pilado. Deita-se o milho seco num pilão de madeira (espécie de almofariz grande) batendo-se ledvemente com o pilão do mesmo dando movimento de rotação para não quebrar os grão mas separar a pele e o gérmen ou coração. Depois de pilado deita-se o milho em água simples para lhes separar a pele e os gérmens. A seguir coze-se o milho em água com um pouco de sal juntamente com algum feijão branco grande produzido naquele arquipélago, que se chama fava, bonjona ou favona.

Quando o milho e o feijão estiverem quase cozidos, deita-se para cozer juntamente carne de porco salgada que se pôs de molho por 10 a 12 horas. Estando tudo cozido, faz-se um refogado com cebola, manteiga de vaca ou banha de porco e começando a cebola a alourar deita-se dentro a carne de porco já cozida, toucinho (um bom bocado), chouriço e às vezes galinha assada ou cozida. Estando bem refogado acrescenta-se o milho e o feijão cozidos, mistura-se tudo ao lume, rectificam-se os temperos de sal e pimenta e serve-se bem quente.
"

Culinária Portuguesa, Ed. Autor, Lisboa, s/data (1935?)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pharmacopeia alimentar

Andam ministros e vereadores atarefados a inventar motivos para neo-museus e tem Lisboa um magnífico, valioso e desconhecido exemplar em plena zona histórica que mereceria muito mais visitação e apreço.

É, como todos os que se prezam de o ser, um local de descobertas e bons encontros. Tem belíssimas e espantosamente valiosas peças de arte com estreita ligação com o tema e que ainda ninguém conhece. Mas essas ficam para outras crónicas.

Para esta ficam os exemplos que aqui mostro.

Os enlatados e em-vacuados alimentos que serviam os cosmonautas soviéticos - originais, obtidos após prolongadas diplomacias,




o ruibarbo que antes de ser estrela das cozinhas inglesas se servia em granulado para, dependendo da dose, ser laxante ou antidiarreico,


o óleo de fígado de bacalhau do qual, sem grande esforço de memória, ainda consigo evocar o absolutamente execrável (pelo menos para os meus cinco anos) sabor,


e esta delícia que hoje nos faz sorrir pela exclusividade - Água "das pedras" de Salus-Vidago (ou Vidago-Salus, como passou a ser conhecida posteriormente) vendida em farmácias - e nos faria integrar manifestações de repúdio no presente se se continuasse a apresentar como "poderosamente radio-activa".


Tudo isto e muito mais, no Museu da Farmácia, na sede nacional da ANF (Associação Nacional das Farmácias), ali para as bandas do Miradouro de Santa Catarina em Lisboa (atenção aos "farmacêuticos" que pululam no exterior: os produtos que vendem não integram nenhum convénio nem têm comparticipação do Estado - use at your own risk...).

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Asterix em Lindavelius

Sinto-me colectivamente ofendido - deverei antes dizer, solidariamente ofendido - com alguma da publicidade que passa em horário nobre nos canais televisivos de sinal aberto nesta mui nobre época consumistico-natalícia.

O desemprego aumenta,  pensões, salários e subsídios são garbosamente desbastados, o clima geral é de preocupação e pespegam-nos em prime time com um avô, portador de um evidente problema de sincronia entre o movimento dos seus lábios e as palavras que nos envia, em destemperada aquisição de bolas de futebol, computadores, jóias e mais sei lá para a sua extensa e desadequada ao euro família, como se não houvesse 2012!

Blhec. Em verdade vos digo, dentro do espírito transparente e fraternal da época, vão mas é pregar o exagero para uma freguesia mais próxima do Pólo Norte, dessas com bacalhau e petróleo e com um grandessísimo be-lhe-que por benção.

Em coerência com a frugalidade dos tempos, decidi-me assim por uma proposta mais poupadinha na conta que não no prazer proporcionado.

Na estrada que liga Algés e Linda-a-Velha, encafuado no meio de uma das inúmeras propostas urbanísticas que encheu os bolsos a quase todos os envolvidos e as ruas a quase todas as cidades e vilas deste país nos últimos vinte anos - e que, por ser igual a todas as outras, me torna difícil identificar, fica o Farol da Torre.

Não tem aspirações a estrela, não tem decoração que entusiasme (ou mesmo aconchegue); tem um serviço simpático, uns donos disponíveis para conversar sobre a comida que fazem e, principalmente, vontade de fazer saboroso, vontade de agradar a quem os procura.

Uns rissois de leitão catitas, alguma cozinha tradicional e pratos de caça sempre que a ocasião o proporciona.


Estas iscas de javali caíram muito bem e o sarapatéu (que de sarapatel nada tinha, era antes carne longamente marinada em vinha de alhos e vinho verde tinto) do mesmo, ainda que errado no nome, acertava como proposta.



É pouco? Não é nada. Na sua despretensão, é muito bem vindo nestes dias de borrasca, porto de abrigo para os pequenos prazeres do dia-a-dia.

Farol da Torre
Rua Marcelino Mesquita, 13, Loja 5, 2795-134 Linda-a-Velha
Tel.: 213011338

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Out of Africa

É oh tão retemperador sair do circuito habitual de compras nas grandes superfícies e voltar aos locais centenários da cidade, reencontrar a tradição, os produtos nacionais, os velhos hábitos, sentir o regresso às origens, ao Portugal profundo e rural...

Uôuôuôuô, parem as rotativas, recolham o kleenex para as lágrimas, aguentem um bocadinho o filme!

Tradição? Produtos tradicionais? Nacionais?


Temos pena... Afinal, trinta e escambau anos depois do fim do império, parece que o passado nos apanha e a profecia do Pessoa começa a materializar-se: não era a sermos redutora e provincianamente fechados ao mundo que iríamos ser universais, pois não?


Ah, o prazer de descobrir e miscigenar...


(Já agora: quem diabo inventou esta nova grafia para os quiabos? É que nem o acordo ortográfico se lembrou desta...)