segunda-feira, 17 de junho de 2013

Uma garrafa com twist


Gosto disto. Não sei - ainda não deu para experimentar - se é tão naturalmente eficaz como o desenho tradicional. O press release menciona como mercado preferencial o segmento dos vinhos de consumo rápido pelo que me parece não ser uma solução para longos prazos.

Mas gosto. Gosto da inventiva, gosto de verificar que ainda há empresas nacionais que investem em Investigação & Desenvolvimento, gosto do som que uma daquelas rolhas irá fazer ao sair com um decidido voltear de mão.

Helix. Corticeira Amorim e O-I.

Força.



quinta-feira, 13 de junho de 2013

Virgilio Martinez: Pachamama em Lisboa




Pachamama, mãe terra, o centro do modelo do mundo segundo os povos indígenas do Andes centrais. A terra, a natureza, o que nasce, floresce e morre, o que nos suporta e importa. Omnipresente, fecunda e fértil, generosa e imparcial. Está dentro de nós e à nossa volta.

Virgilio sobre o parque Nacional de Bahuaja Sonene:
1 milhão de hectares,  25% das aves e 34% dos mamíferos do Perú estão lá concentrados. Estima-se que ainda existam espécies animais e vegetais por descobrir.
Da visita que o chef peruano Virgilio Martinez nos fez, da palestra-apresentação do recente Peixe em Lisboa, ficou-me esta primordial impressão: a de estar perante um cozinheiro engajado (oh, palavra tão em desuso!) - com a sua terra mãe, com os seus concidadãos. "Não posso ser indiferente a um país onde tanta gente não tem dinheiro para comer. É um problema estar a falar de alta cozinha, não posso considerar que o Perú vai estar na vanguarda mundial quando há tanta gente que morre de fome.", disse.

Do mesmo modo me cativou a defesa entusiasmada - eu diria militante - dos produtos do seu país, um mosaico heterogéneo de territórios situados entre os 0 e os 4000 metros de altitude, entre um clima marítimo e um clima tropical, entre a praia e a selva. Defesa ou manifesto, com a confecção de pratos com muitos dos ingredientes referidos, com a exibição de videos de alguns dos locais que mais fascinam e entusiasmam o chef.






Escamas de paiche ou pirarucu


Anchova seca ao Sol
A única referência que encontrei relativa ao nome - Muchaveta - é a da junção das palavras anchoveta (da família das anchovas ou boquerones) e muchame, um prato tradicional peruano, de lombo de peixe seco ao Sol, um pouco como a nossa muxama.

Água dos Andes:
quando uma colónia de bactérias - cushuro - esferifica naturalmente a água dos Andes a 4000 metros de altitude.
Ver http://www.materiniciativa.com/bacterias-de-nuestras-punas/



Graviola
Os pratos apresentados compuseram um quadro de uma cozinha de preparação simples mas de complexos sabores, possível pela abundante diversidade de produtos e de variedades dentro de cada um.

O primeiro, o Leite de Tigre (Leche de tigre) bebida para  curar ressacas ou ser simplesmente desfrutada (ainda que "simplesmente" seja um understatement...)

Cebola, coentros, gengibre, sal e o mais importante e mais característico ají amarelo, os constituintes da marinada do ceviche - a maneira peruana, influenciada pela colónia japonesa de degustar peixe cru (enfim,

O Leite de Tigre no ecrã, a preparar-se para a prova
Acompanhou um tiradito feito com tiras de uma muito nacional pescada, a demonstrar o quanto é possível transmutar técnicas e visões, num caminho que começou... muito antes de nós tugasailors termos "dado" novos mundos ao mundo. Diferindo do ceviche na ausência de cebolas, com um piscar de olho - ou vénia - ao japonês sashimi mas também ao italiano carpaccio.





Paiche ou pirarucú, o "bacalhau da Amazônia".






Camarões abertos longitudinalmente com aji, caldo de camarão











Para os mais curiosos, aqui fica um video de uma master class de Virgilio Martinez realizada no mês anterior ao da sua presença em Lisboa no "Melbourne Food and Wine Festival":



Terminando, referência para a sua iniciativa mais recente - mater iniciativa -, um projecto que visa a partilha de informação, a partir de uma perspectiva multidisciplinar, sobre os produtos peruanos. Produtos mas também os produtores, a sua cultura e os seus conhecimentos, a serem descobertos pelo mundo.

Que o mundo os descubre e, principalmente, adapte a sua visão de equilíbrio.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

As ruínas da Gastronomia Nacional


Em Portugal - sabe-se - quando não se quer resolver nada, nomeia-se uma Comissão.

Quando a vergonha pública é alguma, os gritos da plebe sobem a níveis consistentes com a indignação ou é preciso garantir boa imagem, próximas que estão algumas eleições, investe-se no patamar superior da Comissão - a CLASSIFICAÇÃO.



A CLASSIFICAÇÃO é um regalo para todos: toma tons oficiais com a publicação em Diário da República, permite candidaturas a concursos europeus ou a páginas de guias, aquece discursos e agita bandeiras.

Tem o ligeiro e sempre desvalorizado problema de exigir muito dinheiro para a sua manutenção - dirão os mais avisados que o seu propósito seria exactamente esse - disponibilizar verbas antes negadas - dirão os mais cínicos que esse é o seu não propósito - ocultar que as verbas antes negadas o continuarão a ser.

Em 2000, algumas almas bondosas e verdadeiramente empenhadas conseguiram que o PODER (outra entidade há muito possuidora de uma CLASSIFICAÇÃO) dedicasse alguns minutos (alguns minutos só, já que a montanha pariu um rato) à magna questão da gastronomia tradicional portuguesa. Fizeram-no com um empenho tão convincente que a dita passou por direito próprio a A GASTRONOMIA TRADICIONAL PORTUGUESA.


Foram dias de festa.

De confiança no futuro.

Lia-se a Resolução do Conselho de Ministros 96/2000 de 26 de Julho e exultava-se com os objectivos: intensificar as medidas de preservação, valorização e divulgação da Gastronomia Nacional, como bem integrante do Património Cultural Português. Assim. Em itálico e negrito e tão oficializado que fazia rebentar o dilatado ventre de nacionalista orgulho.

Aquela GASTRONOMIA NACIONAL, tão perfeitamente definida, tão o receituário tradicional português, assente, designadamente, em matérias-primas de fauna e flora utilizadas ao nível nacional, regional ou local, bem como em produtos agro-alimentares produzidos em Portugal e que, pelas suas características próprias, revele interesse do ponto de vista histórico, etnográfico, social ou técnico, evidenciando valores de memória, antiguidade, singularidade ou exemplaridade!

E no ano seguinte, ainda se olhava com deleite para a criança, via a luz a Resolução do Conselho de Ministros nº 169/2001 de 19 de Dezembro que criava a Comissão Nacional de Gastronomia!


Mau.

Mau.

Mau.

Uma COMISSÃO.

Ainda hoje se esperam pelas conclusões da mesma.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Contas, contas e mais contas


Até ao próximo dia 26 decorre mais uma edição Lisboa Restaurant Week. Por 20 euros, têm os cidadãos com apetite gourmet a oportunidade de degustar um menu completo - entrada, prato principal e sobremesa - em alguns dos mais mediatizados restaurantes da capital.

Dos 20 euros,
  • 1 euro será para uma causa social,
  • 4,60 euros serão para a causa pública (IVA),
  • 0,40 euros serão para a causa bancária (média estimada das comissões cobradas nos diversos cartões de débito e crédito).
Diz a teoria (um bocadinho empírica) que, por razões de sanidade económica do restaurante, o preço de custo de uma refeição deverá situar-se nas cercanias dos 25% do preço de venda. O que implica que o preço de custo teórico dos menus servidos no âmbito desta acção deveria ser ... 3,50 euros.

No caso dos grandes nomes que integram a lista, isto significará uma de três coisas: ou têm prejuízo com o evento, ou apresentam um produto abaixo dos seus padrões ou realizam o milagre da multiplicação do valor a pagar - considerando como extra e aos preços normais, couvert, café e o que mais se inventar, não esquecendo as margens habituais nos vinhos -, transformando uma refeição de (19+1) € numa de (19+1+15) euros.

Qualquer que seja a opção ficará sempre alguém a perder. E por mais que não pareça, eu acho que será sempre o restaurante.

terça-feira, 7 de maio de 2013

On assignment - BNP



Gosto muito deste espaço - do tempo que cristalizou como seu e oferece aos frequentadores, do cheiro dos livros, da textura da napa e das madeiras.

Depois de anos de egoísmo saloio, voltou a ser um local de celebração da leitura. De partilha. De descoberta e aprendizagem.

Vou voltar aos bolos.




sábado, 4 de maio de 2013

1º Concurso de Cozinha Nota a Nota: Laureados!

"Résultats du 1er concours de cuisine note à note
jeudi 2 mai 2013 11:39


La finale du 1er concours de cuisine note à note, organisée par Hervé This, Yolanda Rigault et Odile Renaudin, s'est déroulée le 26 avril dernier à l'AgroParisTech (Paris, Ve). Sur le principe de la cuisine note à note qui se caractérise par un ensemble de composés purs qui mis ensemble permettent de recréer la saveur de l'aliment, les lauréats français, irlandais et portugais devaient utiliser un à plusieurs aliments et pour chacun d'eux avoir au moins deux parties de consistances différentes : une dure et l'autre molle. Dans un premier temps, Michel Nave MOF et second de Pierre Gagnaire, a travaillé sur l'isomalt, l'agar-agar, le limonène et la béta carotène pour produire son Chick corea. Puis François Gerbaud et Jean-Thomas Schneider, chefs des établissements Louis François, ont réalisé en direct des calissons à la pulpe de carotte. Et enfin le docteur Roisin Burke et Pauline Danaher de l'école d'art culinaire et de technologie alimentaire de Dublin ont présenté le travail de leurs étudiants soit le bubble n'Fizz. Olivier Planty, cuisinier à Lyon, a imaginé une composition autour du café avec une sphère inverse de lait, une écume et une gelée cassante d'agar-agar au café. La scientifique Novais Santos et le photographe Pedro Cruz Gomez ont présenté leur version d'une griotte, au surprenant noyau, accompagnée de meringues infusées avec de la liqueur de café . Marc Saillard, cuisinier à Paris s'est inspiré de l'enfance avec sa cuillère craquante à croquer. Et Yannick Eprinchard, cuisinier à Tours, a joué avec la couleur en proposant une mousse antocyane."

in L'Hôtellerie-Restauration.fr
Le journal des Restaurants Hôtels Cafés : actualité, emploi, fonds de commerce

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vale do Gaio, lugar de paz

A Primavera - ainda que incipiente - permite desde já estas estratégias, estes hedonistas gestos, estas cedências à tentação.


Face ao espelho de água da barragem que decora a vista da pousada do Vale do Gaio, resta-nos descansar os sentidos nos rosados tons do anoitecer tardio, enquanto a mesa vai sendo aprontada, nas profusas almofadas e espreguiçadeiras do deck fronteiro.


A cozinha balanceia-se entre a tradição alentejana e o gosto de autor e está em sintonia com a envolvente: mima-nos, enleia-nos, gulosa-nos.


Finas fatias de cabeça de xara como intróito (alguém pode explicar a algumas cabeças moderninhas que fazer mais alguma coisa a este equilíbrio de preparação é estragar o trabalho de muitas horas de artífices empenhados e ajudar a enterrar a sua própria reputação?) de suavidade extrema, a pedir segunda volta, e uma terceira...


Pleurotos em alho e azeite, um sabor outonal para saudar o início da noite.


Almôndegas de choco com arroz manteiga , um prato inusitado mas com sabores muito domésticos, longínquas memórias de despreocupadas infâncias.


Bochechas de porco preto, guisadas em vinho tinto, com açorda de espargos, sabor concentrado do Alentejo


Uma bela sessão.

Vale do Gaio Hotel
Barragem Trigo de Morais, Torrão - Alcacér do Sal - 7595-034 Portugal -
Tel. +351 265 669 610 - http://www.valedogaio.com