sábado, 3 de novembro de 2012

Prazer meu, prazeres nossos

No prazer, há uma dimensão impartilhável, intraduzível em palavras e inconfirmável em correspondência que nos mantém numa redoma muitas vezes indesejada. Não sabemos se o outro nos percebe porque nunca conseguiremos descobrir se o que ele julga ter sentido em situações semelhantes é idêntico ou sequer da mesma ordem das nossas sensações.


E no entanto tentamos. Temos esperança que o sorriso cúmplice exprima uma realidade e não uma aspiração. Somos seres sociais e desesperadamente queremos pertencer e ser compreendidos.

Falamos e escutamos, rimos e trocamos olhares cúmplices à volta de uma mesa. Uma e outra vez descobrimos o bem que nos deixa este e aquele sabor, esta ou a outra textura, a surpresa ou a reconfortante confirmação e temos esperança que todos os companheiros dessa viagem sintam o mesmo, essa exaltação, esse bem estar - esse prazer.



Seja num cuidado, refinado, intelectualizado lugar gastronómico ou na mais terra-a-terra, descontraída, descomprometida casa de comer da cidade.


Lisboa guarda-nos momentos assim. De cidade-império, ponto de chegada, regaço de imigrantes de diásporas várias, portadores - agora como há seculos - de alimentos outros da nossa estranheza e curiosidade.






Basta-nos assim um punhado de convivas amigos e uma comum vontade de descobrir e de, com isso, abrir novas rotas de satisfação - somos um e muitos, muitos num só.







Convidados: salada de fetos, legumes salteados, salada de tofu salteado, lingueirão (mini), fígado, bucho de boi, tripa de vaca, tripa de porco, salada de alforreca, beringela, bambu com frango, tendão.

Convidantes: 15 desejos a cumprir

Restaurante Sen-Nom
Calçada da Mouraria

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Santa cefalópode


Chamam-lhe a capital do polvo em Portugal e fazem por merecê-lo.



Santa Luzia, no concelho de Tavira, poiso seguro para as aves de arribação da urbanização vizinha tem à disposição do visitante vários locais de referência para o demonstrar.



Tive, o mês passado, a oportunidade de experimentar dois desses santuários e não posso dizer que discordo da pretensão.

[Pausa]

Descanse-se a viatura junto à ria - de preferência à hora do Sol indeciso entre o laranja e o vermelho - e peregrine-se lentamente, passeio necessário de preparação mental, de lenta absorção do remanso vespertino: o cérebro comanda a vida levado pelos sentidos e nada melhor que umas sinapses descontraídas a passar informação entre neurónios de bem com o mundo. Saibam que qualquer refeição é o Nirvana depois de um passeio assim.





[Fim da Pausa]

Siga-se então a setinha urbana que decifra o caminho para um primeiro encontro.


Sala funda, antiga taberna, passado acentuado pela rusticidade pretensa de cadeiras e atoalhados. Pão algarvio que não atinge a excelência do vizinho mais a Norte mas não trava a gula.


Maionese de raia, numa textura que surpreende os neófitos pelo inusitado - para um peixe: fiapos (a raia desfeita) envoltos em maionese e batata, um prato descomplicado e estival.


Polvo suado, especialidade da casa, infelizmente para lá de Marraquexe em termos de sal. Seria do dia, da cozinheira, do espirro simultâneo com o gesto de temperar? Diz quem é habitual que terá sido certamente defeito e não feitio. Infelizmente não repeti para confirmar. Nos intervalos dos goles de água para amenizar a maresia, deu para perceber um polvo bem amaciado na cozedura, untuoso pelo espesso molho. Cartaz do restaurante, a obrigar a mais atenção.


Quanto ao serviço, de igual só tenho memória numa Vila Real de Santo António de há quarenta anos, adormecida num Portugal turístico-amador: simpático, mas como os Fórmula 1 em pré-coma de desistência com a caixa de velocidades encravada em primeira. Oh descanso de quem sente não precisar de se apressar para manter a clientela!


Já A Casa partilha os pergaminhos com a sua vizinha e ex-irmã mais velha. Em frente à ria, com uma esplanada que apetece viver até à exaustão dos petiscos, introduziu-me a mais uma soberba variação do atum, uma Estupeta acompanhada à guitarra e à viola por tomate e pimento, numa combinação que só não me fez chorar por mais porque me apressei a repetir. Benditos séculos de tradição que tão bem souberam aprimorar este manjar de terrenos deuses!


Muito bons também os Rissois de polvo, de massa sapiente em sapiente fritura, sem traço de excessivo óleo, a enroupar um muito bom recheio. A convidar a uma tarde inteira de guloso mordiscar.


Por fim, tiras de tradicional Choco frito: novamente bem fritas e bem secas, com a carne tenra, sabiamente afastada do emborrachado que resulta de uma preparação descuidada. Muito bem, muito bom, muito fiquemos mesmo por aqui a apreciar o final do dia.


Está-se bem servido nesta santa luzidia de tanto calor.


Ver Gastrossrestaurantes em Santa Luzia num mapa maior

O Alcatruz
Rua João António Chagas Pereira, 46, Santa Luzia, Tavira
Tel.: 281 381 092

A Casa
Av. Eng. Duarte Pacheco, 10, Santa Luzia, Portugal
Tel.:965 084 207

sábado, 27 de outubro de 2012

Entrar pelo Cano

Comecei a saber do Cano muito antes de o visitar.

Ele era a terra dos pais de uma grande amiga.

Ele era o Herbert Viana a dizer que lá tinha entrado depois de, gaiatamente, ter entrado num navio.

Finalmente, foi uma neurovoz a encomiasticar a vila como a base da melhor salsicharia do país.

Num daqueles dias estivais que agora nos parecem tão afastados mas que só foram há bocado, aproveitando o caminho para o Sul, fiz o curto desvio e lá entrei pelo Cano, à procura da D. Octávia e do produto das suas mãos.

Oh maravilha.




A xara que se derrete na boca e nos faz abençoar o intelectual reco pela excelência da sua cabeça; as linguiças e chouriços, tostados pelo álcool numa barrenta canoa, salgadas provocações de mastigar lento e que nos enchem daquele torpor feliz de quem prova um pedacinho de paraíso; a barriga afirmativa que atira para lá da fronteira o que lá da fronteira tem vindo a cavalo de subserviências envergonhadas pela pretensa falta de equivalentes nacionais.



Ajoujado pelo peso resultado da gula desenfreada, da salivante boca, do reflexo no balcão dos meus brilhantes olhos a antever pantagruélicos e mais pantagruélicos festins nos dias vizinhos, saí cambaleante para a adormecida rua do vespertino Sol alentejano e logo me assaltou a inquietação que se transformou em dúvida: "Então por aqui também não haverá queijo que se coma?"

(ah, queijo que se coma... como se houvesse queijo para não se comer... o que há é coisas para não comer que deveriam ser proibidas de se chamar queijo)

Que havia, pois havia, na rua mesmo ao lado, a Queijaria Saianda.


Paletes. Paletes de queijo de ovelha, à nossa espera. Ainda pouco curado, pouco também resistiria nos dias subsequentes, um após outro...


"Então e o pão? Estamos na terra do melhor pão de Portugal e vamos comer queijo e enchidos com sucedâneos menores? Não há por aqui uma padaria aberta?"

Havia. Que estava fechada mas que batêssemos ao lado porque já deveriam estar a fazer os bolos para o dia. E estavam. E abriram e venderam felizes que aqui não há horas públicas para vender e todo o cliente é um amigo e um objecto de desejo.


Ah, o alentejano pão, cujas cópias lisboetas tão próximo ficam do restauro do Ecce Homo de Borja! Quão difícil é conseguir conjugar tão perfeitamente este estaladiço da crosta, o amargo do miolo, o aroma - o aroma! - desta obra de arte!


Ainda bem. O reencontro, por longínquo e demorado, sabe tão melhor.

Faltava ainda o vinho, mas isso são contas de um próximo rosário. Fiquem com os mapajuda e peregrinem, peregrinem até que as rodas vos doam.


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Ver Coisas do Cano num mapa maior

Salsicharia Canense
Rua de São José, 7470 Cano
Tel.: 268 549 203

"Somos uma empresa familiar e como o próprio nome indica apenas as pessoas da família trabalham nesta empresa. Nestas condições temos a possibilidade de efectuar a venda ao publico todos os dias da semana incluindo fins de semana. de 2ªf a Domingo das 8:30h ás 20h. Os nossos produtos são fabricados como tradicionalmente as pessoas mais antigas os fabricavam. Apenas utilizamos tripa natural, ou seja, não utilizamos nenhum tipo de tripa plástica. A massa de alho e pimentão somos nós que a fazemos para adicionar à carne que migamos após desmanchar o porco. Não mandamos vir carne ou porcos por desmanchar. Matam o porco no matadouro e nós desmanchamos e separamos a carne na nossa salsicharia. Após a carne estar migada e temperada e em condições de encher, já podemos fabricar o nosso enchido. A fase final passa pelo fumeiro e este é um simples fumeiro que cura a carne com lenha de azinho. Não temos sacadores eléctricos nem nenhum tipo de estufa. Após algum tempo no fumeiro o enchido está pronto a ser comercializado. Os produtos que comercializamos são os típicos da nossa zona e estes são:
  • O chouriço de porco preto
  • A farinheira de porco preto
  • O chouriço mouro de porco preto ( morcela)
  • A cabeça de xara
  • O paio de porco preto
  • O painho de porco preto
  • O lombo enguitado de porco preto
  • A peça do lombo de porco preto
  • A cacholeira de porco preto
  • A paia de toucinho de porco preto
  • A banha simples ou temperada
  • A morcela cozida de porco preto
  • O toucinho de porco preto
Os nossos enchidos são todos fabricados com carne de porco preto e temperados apenas com produtos naturais como alho, sal e pimentão."

Queijaria Saianda
Rua St António 50 , 7470-032 CANO
Tel.: 268 549 230

Padaria “Boavista”
Rua da Boavista nº 19, 7470-027 Cano
Tel.: 268 950 081
Encerra aos Domingos

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sentido adeus



Tão cedo passa tudo quando passa!

Perto do Guincho viveu durante meses, acarinhado pelo seu criador e por todos os que, rendidos uma primeira vez, logo retornavam, ávidos de serem desafiados pelo perfume, descompassados pela textura, descontrolados pelo sabor. Infelizmente poucos - oh so few, so very few...! - foram insuficientes para garantir a sua solvibilidade.

Partiu agora tão cedo desta vida descontente.

A nova carta do Oitavos está cheia da água na boca.

Mas este cachocroute, este hot dog, este cachorro-da-minha-estimação-oh-és-tão-bom-que-te-levava-já-para-casa-com-garantia-vitalícia-de-substituição-imediata-em-caso-de-dano-roubo-explosão-ou-degustação foi descontinuado.

Estou triste.

Por vocês que nunca mais este ano o poderão descobrir.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Panorama bom, o resto mediano



No Portugal do antigamente, de pobres costumes e défice controlado, a temporada de saldos era um evento dois-em-um onde os mais remediados dos "remediados" (palavra posta em desuso pela CEE e em vias de recuperação pela UE) tinham - finalmente - oportunidade de comprar roupa nova e onde os monos de temporadas passadas encaixotados há muito nos fundos da loja, obtinham segunda oportunidade para brilhar.

Ao contrário do que cantava o Zé Mário, apesar de terem mudado os tempos, as vontades permaneceram imutáveis. Por lei, nos saldos - de roupa... - só são admitidas peças do ano,  à venda anteriormente na loja. Mas, graças a Deus, a criatividade anda sempre um passo à frente daquela e a maior parte das campanhas que por aí andam anunciadas como panaceias para o consumidor-gourmet não passam de disfarçados modos de continuar a assegurar lucros no negócio.

É a vida, pá.

Sendo a situação económica actual o que é, com a redução dos rendimentos dos consumidores, o aumento do IVA, o desapoio bancário, é segredo de polichinelo o periclitante estado financeiro da maior parte dos restaurantes. Eventos como o "Restaurant Week", com o anunciado preço de saldo (19€) para uma refeição completa, parecem ser, pelo menos teoricamente, um modo de alargar o número de consumidores, servindo como introdução do restaurante a novos entusiastas que, mesmo não frequentemente, seriam cativados para novas visitas. Instrumento valioso pois, a ser tratado com atenção e carinho.

Apesar de me parecer óbvia esta posição, o facto de ainda ter vivido o tempo dos mono-saldos, criou-me uma desconfiança de base de todas estas desprendidas ofertas: refeições em restaurantes de luxo pelo valor anunciado são como a manta do pobre - em algum lado há-de faltar alguma coisa.

Apesar disso e entusiasmado por voz amiga, decidi-me a - desta vez eu - experimentar este ano um dois-em-um: conhecer o restaurante, nas palavras da maioria dos críticos, mais injustiçado dos não-premiados pelo guia Michelin e verificar a benignidade da iniciativa.


Reserva feita para o almoço, bom atendimento, à altura dos pergaminhos, uma carta especial - e especialmente colorida. Menu fixo na entrada e na sobremesa, única opção entre o prato do lombinho de bacalhau e o de peito de "canette".




Pratos bem confeccionados mas não especialmente interessantes, muito menos entusiasmantes. Tantas refeições a suplantar esta, mais baratas, mais caras. Onde a "alta" cozinha, a "elevadíssima" qualidade? No menu de degustação, na carta fora da promoção? Qual então a mais valia para o cliente - a vista?



Como introdução soube a pouco, soube a insuficientemente pouco para desejar voltar.

No final, a resposta à dúvida inicial. Duas pessoas, dois menus (19 + 1 €), um copo de vinho, um sumo, uma garrafa de água, um café: 60 euros.

I rest my case.

domingo, 23 de setembro de 2012

Águas de bacalhau


No seu mais recente livro(*), escrito em parceria com o filósofo Daniel Innerarity, Andoni Aduriz postula que, mais além de sermos o que comemos, nós somos como comemos. "Na nossa comida quotidiana põe-se em jogo um interessantíssimo complexo de actividades culturais e sociais, um entrançado de rituais, convenções e funções biológicas, um espaço de tensão ética e política e mesmo uma concretização das realidades globais.", acrescenta por sua vez o filósofo.

Somos como comemos e no nosso acto de comer concentra-se todo o mundo. Inconscientemente, na nossa escolha, em paralelo e conjunto com milhões de outras, decide-se o destino de agricultores e produtores; de regiões e tradições; de ligações familiares, sociais, afectivas ou culturais. Num presente, em cada presente, mata-se ou reinventa-se o passado, cria-se ou ignora-se o futuro.

Todo o mundo se concentra no nosso acto de comer. Inversamente, esse acto permeia todos os aspectos da nossa vida. Prova dessa prevalência encontra-se na linguagem coloquial de qualquer cultura, impregnada de influências culinárias ou no uso, em muitas religiões, do simbolismo alimentar.


"Piece o' cake" dizem os americanos das coisas fáceis; "not my cup of tea", contrapõem ingleses acerca de algo que não agrada.

Em França, o que se vende bem, vende "comme des petits pains" (no Brasil é "como pãezinhos quentes"). E enquanto em Portugal é preciso arregaçar as mangas, na pátria da patisserie, é necessário "mettre les bouchées doubles".

Em português de Portugal, somos "cabeças de alho chocho" se não atingimos os patamares que de nós são esperados; quando deixamos o automóvel em casa ou a bicicleta na oficina viajamos "como sardinhas em lata"num obviamente "cheio como um ovo" veículo público.

(Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)
Uma confusão é, obviamente, uma "caldeirada", um preliminar de namorados, uma "marmelada". Se alguém se porta mal, prometemos-lhe arroz ("eu já te dou o arroz!") - o que, para mim é incompreensível, a menos que o espécime a ofertar seja do tipo unidos-venceremos-cheio-de-bispo-feito-pelo-cozinheiro-do-rancho-no-quartel-dos-rangers-de-lamego -, mas se a nossa ascendência fôr grande, esse alguém acabará por vir "comer à nossa mão" (efeitos, porventura, da marmelada anterior).

Metemos "a mão na massa" para fazer as coisas à nossa maneira e do nosso completo agrado mas comemos "o pão que o diabo amassou" se a vida nos foi madrasta.

Talvez a expressão que mais se adeqúe ao momento presente seja a das, outrora abundantes, "águas de bacalhau".

Sacrificamo-nos, sacrificam-nos - continua tudo em águas de bacalhau; o Governo anuncia medidas, há manifestações, recuam-se as medidas - continua tudo em águas de bacalhau; abraçam-se polícias, apupam-se polícias, cortejam-se polícias, agridem-se polícias - continua tudo em águas de bacalhau.

De onde virá esta imagem? Das águas salobrizadas pelo contacto com o salgado teleósteo, impróprias para o que quer que fosse? Ou, inversamente, da riqueza (o sal ou as expectativas) que se perde nas águas, não ficando aproveitável para nada?

É uma pena. Poderíamos encher a boca, os placards e os comunicados políticos com imagens fortes como paios, promissoras como as uvas moscatel, entusiasmantes como um cozido, galvanizantes como um vinhão. Mas não. Macambúzios como somos, encolhemos os ombros deprimidos, decidindo, como sempre, que tudo isto é para ficar, como sempre,

em águas de bacalhau.



(*) - Cocinar. Comer, Convivir - Andoni Luiz Anduriz e Daniel Innerarity, Ediciones Destino, Barcelona, 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O melhor peixe do mundo? Em Tavira


Paletes.

Fossem os meus olhos brasas e a minha boca uma grelha e o mercado de Tavira ficaria transformado num aromático, tentador, mirífico expositor de irrecusáveis peixes grelhados em menos tempo que leva a dizer a palavra troika.

Oh felicidade, oh curiosidade apenas em princípio de ser satisfeita, oh regalo para a vista, oh orgulho indomável e irreprimível de ser concidadão de quem do mar recolhe tamanha maravilha e de ser vizinho de tamanho alfobre de - neste mundo e neste tempo de artifícialidades - raridades!

Pobres lisboetas orgulhosos do seu mercado da Ribeira e da proximidade do Tejo que, erroneamente, lhes faz concluir ter à porta o acesso a esta diversidade...

O Algarve não é Allgarve - é ALLFISH.