sábado, 19 de maio de 2012

Biológico Real

Aos Sábados, até às - give or take  - duas, o topo Norte do jardim do Príncipe Real é um microcosmos. No topo do topo, perto da estragação consular que um interessante palacete oitocentista agora ostenta, lá fica a banca da Quinta do Poial que a Maria José, com simpatia e arte, vem transformando em tertúlia de amigos, todos coca-bichinhos, todos gastroamantes, todos sempre prontos a deliciar-se com as novas propostas vindas de Azeitão.


Tenho na cozinha uma sinfonia de aromas. Aos aromas ainda a Canon não consegue captar os segredos mas as cores e texturas não escapam. E aqui ficam. 






sexta-feira, 18 de maio de 2012

Estrelas do Oceano

Para que nos servem as estrelas? Para podermos sonhar.

Sonhar um jantar de felicidade, um momento compartilhado, um êxtase solitário. Sonhar uma carreira ou um sucesso. Sonhar esquecer ou sonhar não deixar de lembrar.

A Rota das Estrelas é um evento gastronómico itinerante que reúne algumas das estrelas Michelin de Portugal com esses momentos de prazer. Ao longo do ano, nos diversos restaurantes portugueses distinguidos pelo Guia Michelin e à vez, cada Chef / restaurante é o anfitrião de outros Chefs estrelados, convidados para uma simbiose gastronómica.

O restaurante Ocean, duas estrelas Michelin, recebe a terceira edição da Rota das Estrelas neste fim de semana de 19 e 20 de Maio, a partir das 18h30.

Duas criações de Hans Neuner apresentadas no Peixe em Lisboa 2012
Hans Neuner, Ricardo Costa e Benoît Sinthon (Il Galo d'Oro (Funchal)) unem as suas 4 estrelas num menu conjunto harmonizado com uma selecção de vinhos do escanção do Ocean, Nelson Marreiros. Paralelamente, haverá uma prova vertical de presuntos Jabu, com a presença de um cortador profissional e comentários de um especialista da marca, em que serão degustados vários presuntos com idades e características diferentes. Adicionalmente, decorrerá uma prova comentada de caviares, harmonizada com champanhe Ruinart, com degustação de ovas com proveniências diferentes: de rio, semi-cultura, cultura, chinês e selvagem Beluga do Irão, House of Caviar.

Variações de atum: Ricardo Costa no Peixe em Lisboa 2012
Preço: 180€ (bebidas incluídas). Degustações às 18h30. Jantar às 20h00.

Restaurante Ocean,
Vila Vita Parc
Rua Anneliese Pohl, Alporchinhos . 8400 - 450 Porches
Telefone: + 351 / 282 / 31 01 00 ; e-Mail: reservas@vilavitaparc.com

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Em Colares, face à Ribeira

Por vezes divido-me entre a vontade de partilhar e o egoísmo de os querer para poucos. É uma hesitação que dura pouco. Só a procura manterá saudáveis estes pequenos prazeres e só assim poderão os mesmos continuar a ser desfrutados.

Colares. Esqueça-se o caminho tradicional paralelo aos carris - excepto se se optar pela viagem a bordo do eléctrico - e, começando pelo largo do palácio da vila em Sintra, siga-se em direcção a Monserrate e depois até à vila. É aceitável perder-se - o almoço fica para jantar ou o jantar para pequeno-almoço, a serra é um assombro ao Sol ou à Lua.


Chegue-se então, mais tarde ou mais cedo. O carro pode desde logo ficar estacionado em frente à Adega Regional, de modo a não pesar o transporte das próximas aquisições, obrigatórias a seguir ao repasto.


A cem metros, a Ribeirinha de Colares, objecto da viagem.



Sala agradável, com um bricabraque encantatório, anfitriã efusiva e diligente, de uma simpatia cativante.



Na lousa, na parede, o menu:


Nada de extraordinariamente original, algumas tentações. Os preços são uma surpresa agradável que se confirma em satisfação nos pratos experimentados: os "Mexilhões com aipo", à la crème, uma associação que funciona, sem que o vegetal se imponha, antes complemente.

O "Mil folhas de bacalhau", massa bem folhada sem exagerar no estaladiço.


O "Fígado de Cebolada", umas deliciosas iscas cortadas bem finas como deve ser e que me derreteram e deixaram de bem com a vida,


também porque, a preços bem interessantes, foram acompanhadas por este Viúva Gomes da Adega homónima que sucedeu a um maravilhoso Colares Arenae da Adega Regional de Colares.


Os doces vieram em variações porque a mesa era generosa e recheada de gulosos de gostos diversos. De boa apresentação e apreciação positiva geral e particular, aqui ficam registados.






Em síntese, um lugar onde se está bem, onde se come agradavelmente, onde se é bem recebido e onde se paga um preço justo.

Que dimane diáfana a ribeirinha para nossa fruição por muitos e tranquilos anos!

Ribeirinha de Colares
Av. Bombeiros Voluntários, 71 r/c
2705-180 Colares - Sintra
Reservas: 21 928 21 75 ; 91 222 74 30 ;  geral@ribeirinhadecolares.com
Horário das 10:00 às 23:00
Encerra 2as. Feiras, Natal e Ano Novo

terça-feira, 15 de maio de 2012

Cook it Raw, Bourdain!

Eu sei. É aditivo.



Ver os programas do Bourdain é entregar-se ao prazer de ter inveja de uma actividade profissional que parece o sonho de qualquer hedonista: comer, beber, viajar.

Ver os programas do Bourdain é igualmente descobrir. Questionar. Questionar-se.

Assista-se a este episódio, filmado no Japão por ocasião de mais uma edição do Cook it Raw, reunião anual de alguns dos Chefs da linha da frente, gente na fronteira entre a genialidade e a falência, cozinheiros que o mundo presente endeusa e de futuro provavelmente grandioso (mas quem sabe para onde irá a crise, para onde irá o mundo, para onde irão as preferências de quem os pode sustentar?).

Avant-gard Chefs, chama-lhes a organização. Pelas propostas apresentadas, idealizadas no pouco tempo que medeia entre a descoberta do espaço envolvente e dos ingredientes possíveis, pela radicalidade de muitas delas, o epíteto não está errado.

(Do site)
A vanguarda é o hábito de amanhã - será expectável que, nos restaurantes desse dia, nos sirvam produtos acabados de apanhar em Monsanto, Sintra ou Arrábida, seguindo os passos de Redzepi ou Magnus Nilsson? Do-it-yourself pratos, como os de Dave Chan?

E já agora: em pratos tão deslumbrantes, mouth-watering como os desenhados expressamente para o evento?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A importância de se chamar Ernesto

Presumo que acontece a todos: o contacto com experiências culinárias mais bem conseguidas, com melhor técnica e exemplares de maior qualidade faz empalidecer o que se considerava como padrão. Pratos ou restaurantes pelos quais se tinha algum afecto passam a viver próximo da mediania acabando, se revisitados, por se constituir como desilusões. Sobe o grau de exigência, a bitola utilizada altera-se e o que antigamente nos deixava satisfeitos provoca um amargo de boca pelo tempo gasto e a oportunidade para novas descobertas desperdiçada.

Recentemente, duas experiências em restaurantes "de sushi", deixaram-me próximo dessa sensação, comprovando, num caso, o preconceito que trazia, no outro desiludindo a expectativa criada por um elogioso "word of mouth".

(A minha relação com o sushi é antiga e teve origens humildes, num take-away londrino ainda no tempo em que Lisboa era um deserto em termos de restaurantes de inspiração japonesa. Estranhei com a convicção de que se haveria de entranhar. E entranhou-se como se entranhou em Portugal esta oferta, principalmente depois da reconversão que uma miríade de casas chinesas entendeu temporariamente fazer depois de uma demolidora reportagem televisiva. Sou um engajado degustador. E sou um interessado descobridor de novas propostas, na esperança de descobrir aquela que irá ultrapassar a ainda que considero (apesar de algumas surpresas) a mais bela experiência de sushi da capital. Porque, quando a descobrir, terei rasado o nirvana.)

Passo displicente pelo relato da primeira experiência: fracos produtos, fraca preparação do arroz, pouca variedade, decoração moviflor. Garrafeira miserável excepto nos preços pedidos. Conta final acima dos 30 euros por cabeça. Um aperto pelo desperdício e a esquecer em passo de corrida.

Já a segunda... Sushi alentejano, conhecem?

Conceito inicialmente desenvolvido numa casinha de dimensões... japonesas, aumento de clientes, proposta de sociedade para vôos mais arrojados, desilusão/zanga/dissolução com o amargo de boca (segundo o autor em referência feita durante o jantar) de ver perdidos os direitos de autor sobre o nome original. Regresso às origens na rua de S. Sebastião da Pedreira onde a impossibilidade referida renomeou a proposta como "Mê sushi".



E o que se pode encontrar no 1ª Sinfonia?

Uma cozinha polvilhada de inspirações com notas mais portuguesas, como esta entrada de tortilla de farinha de entrada, acompanhada pelo shot de creme de feijão verde. Frango, doce, picante, ácido, boas perspectivas.


O sushi? Uma bem intencionada e esforçada realização. Infelizmente, não de levantar a mesa.

Como se o restaurador tivesse de resumir toda a sua obra num só prato: a diversidade de propostas, o aglomerar de ideias, transformam a degustação num frenesim de sabores, num ajuntamento de texturas e de gostos que actuam com dissonância entre si. Sendo diminuta a prova (repare-se no prato: 12 propostas diferentes!), quase impossível se torna a lembrança, a fixação de uma solução. Fica-se com uma vaga ideia a que se sobrepõe a dúvida; terá sido o... ou o...


Resta assim algum lamento pela pouca força - por via desta dispersão - com que nos agarra a proposta. Como seria com menos variedades?

Doces igualmente com aspirações originais, em proposta fixa.


Este menu de degustação para duas pessoas custou 29 €.

Serviço simpático ainda que algo lento, reflexo da diminuta cozinha. Esperemos que o caminho se faça ao contrário do trânsito da rua e vá em direcção ascendente. Há idealistas que merecem um sorriso da sorte.

1ª Sinfonia
Chef Eduardo Guerreiro
restaurante1sinfonia@gmail.com ; Tel: 938 315 913 ; https://www.facebook.com/primeira.sinfonia ;
Rua São Sebastião da Pedreira 109-111
1050-207 Lisboa

sábado, 12 de maio de 2012

Borrego 86

Não sei se é preciso ter coragem
loucura 
ou desplante 

em doses maiores que o habitual, para apresentar um prato como este Lamb 86.



86 componentes individuais -

hortelã, cebola vermelha, anis, alcaravia, fumo, iogurte, vinho tinto, endívia, coentro, beringela, laranja sanguínea, rum, alcachofra, tomilho, pêssego, feijão branco, cravinho, tomilho, funcho, pimento vermelho, vinho da madeira, alperce, limão, louro, oregãos, anis estrelado, azeite, segurelha, cereja, favas, cereja, caril, café, cominho, salsa

- (não, não elenquei os 86...), colocados com pujança e precisão num prato de vidro, servidos como acompanhamento das fatias de carne.

No Alinea, em Chicago, Chef Grant Achatz.

Displicência? Racionalidade absoluta? Qual será a reacção de cada um de vós ao ver o video, qual seria a reacção, postos perante esta proposta sem informação prévia?

"Acho que a cozinha que fazemos no Alinea é frequentemente incompreendida. Não se trata de apertar o colarinho, colocar uma gravata e ficar sentado muito direito. Antes relaxar e relembrar a sua infância e divertir-se com os amigos.", disse Achatz há poucos meses. " Descrevemos a nossa cozinha como progressiva americana porque, basicamente, queremos pensar adiante. Tentamos utilizar todas as ferramentas postas à disposição do chef moderno para criar um experiência inesquecível. Algo que conte uma história e que leve as pessoas a permanecer sentadas por três a quatro horas e a divertirem-se."

Divirtam-se em diferido com este video, cortesia Huffington Post:







Filetes

Não sei. Talvez seja o pressentimento da iminência do desastre. Como Berlim Ocidental nos idos de oitenta, ali na linha da frente da Guerra Fria (e quantos dos que me lêem terão vivido, em vez de ouvido, esses anos?), à espera da invasão, das bombas, do desastre e entretanto a viver como se já não houvesse amanhã, futuro, esperança. O desespero como mola criadora, nunca a cidade foi tão viva, tão criadora, tão centro da cultura contemporânea (excepto, talvez, nos anos 20, outra década de niilismos, antes do zero absoluto). Divirjo.

Lisboa.

Restaurantes cheios e a não aceitar convivas sem marcação. Bares, esplanadas e cafés ocupados a horas nocturnas, dias de semana, locais improváveis e fora da batida Área Turística de Incentivo Oficial. Como se o amanhã seja radioso ou não vá existir amanhã para pagar a factura do cartão.

Será só a moda a aproveitar? Estarão desertos os menos bafejados pela pouco previsível equação do gosto mediático?

Saio de uma tasca chic à beira rio fechada a clientes sem reserva e percorro as poucas centenas de metros que a separam de um local tradicionalizado num guia do qual não recordo o nome mas que me deixou a memória da recomendação. Igualmente cheio, uma última mesa livre, vizinha dum grupo televisivamente reconhecível, garantia provável de uma boa escolha.



Nem por isso. Ementa de pratos "tradicionais" (não confundir com regionais) previsíveis, bifes, filetes, polvos, bacalhaus. Filetes pouco vivos com um inaceitável arroz de feijão, cozido para lá de qualquer paciência. Salada de alface e tomate com milho doce a tiracolo. Bifinhos razoáveis com batatas genuínas mas mal fritas. Carta de vinhos variada e com preços razoáveis. Conta não muito escaldante, um bocadinho acima da qualidade do experimentado.



Como esta expectativa do futuro. Sem necessidade de registar e sem vontade de conhecer.