sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fusão ou fissão?

Ah não.

Eu, incansável buscador de novidades, de propostas alternativas, de migrações mundiprovenientes, digo não. É preciso traçar uma linha e essa linha traça-se aqui.

[Interlúdio cultural. Música possante, qualquer coisa beethoveniana, quarto andamento da 6ª, por exemplo. A voz do Viegas a clamar Pessoa, aqui ao leme sou mais do que eu:/ sou um povo que quer o mar que é teu;/ E mais que o mostrengo, que me a alma teme / E roda nas trevas do fim do mundo, /Manda a vontade, que me ata ao leme, / De El-Rei D. João Segundo! (voz cava, assertiva, lágrima a assomar e garganta enovelada pela emoção). Estamos em república e o presidente não manda o que o rei podia, mas vocês estão a perceber a ideia]

É natural e interessante o multiculturalismo, a renovação de ideias, as visões diferentes.


Mas sardinhas assadas com batata frita é que não. Ah não.

Culi ordinário

Andava eu à cata de curiosidades nesta edição do que historicamente foi o segundo livro de cozinha editado em Portugal (em 1780) quando deparei com esta receita. Seria uma versão setecentista dos coulis de fruta? Não... mas não deixei de apreciar a ironia inerente à apresentação de um prato ordinário por alguém que, pela sua condição de cozinheiro de reis deveria estar obrigado a só realizar feitos extraordinários...

"Culi ordinario

Guarneção o fundo de huma cassarola com pranchas de vitella e duas fatias de presunto, algumas raizes, e cebolas ; ponha-se a suar sobre lume brando, deitando-lhe de quando em quando huma gota de caldo ; escume-se, e tempere-se com huma capella de salsa, e hervas finas, huma cebola com dois, ou três cravos; ligue-se com farinha corada , ou quando não com farinha desfeita em substancia, e deixe-se ferver pouco e pouco ; em estando cozida a carne, tire-se-lhe a gordura ; passe-se pelo peneiro, e sirva para ragús, molhos, e para o mais que for necessário."

(in:

 COZINHEIRO MODERNO 
OU NOVA 
ARTE DE COZINHA, 

DADO À LUZ 
POR 
LUCAS RIGAUD, 
Hum dos Chefes de Cozinha de suas Magestades 
Fidelissimas

LISBOA.   M.  DCCC.  VII.

NOTAS:

Gostei do termo capela de salsa mas não percebo se devo considerar o seu posicionamento na hierarquia dos espaços religiosos e traduzi-la como "um poucochinho" ou considerar o seu carácter de abrigo e colocar  o suficiente para nela se recolherem as carnes.

Usar farinha corada é perfeito - a farinha virginal que ainda enrubesce quando apresentada a carnes desnudas e suadas dá uma nota especial a qualquer prato.

A indicação final é preciosa, a fazer-me lembrar uns quantos contemporâneos que se podem usar nesta e naquela tarefa e para o mais que for necessário.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O pior de sempre

Sem pretensão de ter assistido a uma mini-micro-nésima parte de toda a publicidade videográfica alguma vez feita em todo o mundo, afirmo sem qualquer sombra de dúvida que este é o pior, mais mal concebido, mais ridículo, mais tudo e alguma coisa depreciativa que o dicionário contém, video do sector alimentar... de sempre.



Espero, para o futuro de todos os intervenientes, que seja uma visão gatofedorenta de humor catalão.

Umas meninas chamadas Goji

A pedido de uma enormidade de famílias, aqui deixo o resultado das minhas pesquisas.

As bagas Goji estão à venda em todos os hipermercados, secção que, tivessem os gestores de conta imaginação e humor, seria denominada "new age". À falta de toponímia certa, procurem por suplementos vitamínicos ou soja. Se mesmo assim ninguém desse benfasejo lugar vos conseguir direccionar, desistam e vão à loja do Celeiro mais próxima.

Isto se quiserem ser generosos convosco e gastar mais do dobro que as mesmas custam na loja Manuel Tavares ali na Rua da Betesga (que é aquela rua que os antigos usavam para meter o Rossio quando o passo era maior que a encomenda) em Lisboa.


Como se pode ver pela foto (tirada em Novembro passado), 250 gramas custam menos de 3,50 euros, enquanto o mirrado saquinho dos hipers com 125 gramas custa à volta de 3,60. Como dizia o nosso ex Toneca, é fazer as contas...

Rubro: Tapas na Rodrigues


É um desconchavo passar por Lisboa à noite se o fizermos longe da grande farra que é a zona do Bairro Alto/Chiado: ruas silenciosas, luzes apagadas na maioria dos apartamentos afastados do seu desígnio  habitacional, uma decrepitude de ânimo que nos afecta e faz parelha com a decrepitude real ou arquitectónica da envolvente.

Os restaurantes - quando não fechados sobre si mesmos, quase secretos no seu anonimato - são ilhas que se buscam na esperança de sentir a cidade viva, de nos sentirmos acima da soturnidade de Cesário, desta melancolia que nos rala por dentro e nos entardece.

Numa destas noites descia a Rodrigues Sampaio, dividido entre o alternar arquitectónico de arte nova e modernismo e entrou-se-me pela curiosidade dentro este RUBRO. Assim. Janelas montras de um interior convidativo, despojado mas pensado, no edifício de Norte Júnior que traseira o (também seu) mais magnífico exemplar de arte nova da capital (quanto tempo resistirá aos apelos hoteleiros?), ali estava, tão convidativo que entrei.

Ambiente descontraído, carta não muito extensa mas com propostas tentadoras, carta de vinhos compacta, com preços aceitáveis dentro do exagero generalizado.

Menu de degustação:
O camarão, a morcela, o portobello e os fígados. Codorniz em escassez de postura...


Puntillitas, exageradamente fritas, uma overdose de gordura, atenuada pelo sumo de limão. Sempre uma tentação...


Mojama, a versão andaluza da algarvia e muito nossa (e muito desconhecida) muxama que a Mercearia Criativa oferece. Uma delícia para quem a descobre, um prazer renovado para os iniciados (já comi melhor? Não conhecendo a proveniência desta, posso pelo menos dizer que já houve provas que me souberam melhor).



Uns revueltos com espargos verdes muito bem feitos.




O pequeno óbice dos bancos sem costas não tolda a agradabilidade do conjunto.

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma vai reconfortada.

E a noite até pareceu mais bonita no passeio posterior, com as jóias realçadas e as ruínas recuadas para a obscuridade...



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vermelho: arte e gastronomia



"O que é que vês? Vá, aproxima-te, tens de te aproximar e deixar que ela fale contigo. Que te envolva. Que comunique. Inclina-te, vá. Não esperes que ela faça tudo sozinha. Tens que te envolver também."



A peça não começa exactamente aqui mas começa aqui. Vermelho, a fictícia conversa entre o pintor Mark Rothko e o seu ajudante à data da execução do conjunto de telas para o restaurante Four Seasons em Nova Iorque.

Vermelho, onde vi verbalizadas muitas das ideias que comungo sobre a Arte.

Esperem, pareço pretensioso, não é? Desculpem, mas ainda estou entusiasmado com o texto bem como  fascinado com a situação ambivalente de Rothko. Que contradições: um socialista a aceitar "vender-se" a uma grande multinacional, para executar o que pode ser considerada uma empreitada de decoração das paredes de um restaurante.

(In case you're wondering, o artista quis, com o seu trabalho, provocar o "inimigo"; inimigo que nem sequer percebeu a provocação, o que levou Rothko - quando disso tomou consciência -  a devolver o adiantamento e a desistir do contrato.)

Ora Arte e decoração não combinam, são duas expressões antagónicas: uma obra de arte contesta, desafia, questiona, interroga, provoca, incomoda enquanto uma obra decorativa pretende exactamente o contrário, é um mar flat, uma planície sem vento, um lençol sem vincos.

Estava eu nisto, muito contente no meu papel de espectador engajado, quando me lembrei da defesa acérrima que faço da gastronomia como arte - a arte de cozinhar com o objectivo de proporcionar prazer aos que comem. Hum... Se o objectivo é unicamente proporcionar prazer não estaremos nós a endeusar o que pode ser apenas um ofício? É verdadeiramente arte ou simplesmente decoração da nossa vida?

Régis Marcon - Grenouilles
(Autor: Laurence Barruel)

Mas será puramente visceral o prazer que uma criação culinária nos traz? Não será estético o prazer que sentimos nas explosões de sabor, nas subtilezas das combinações, nas harmonias visuais, nas provocações, citações, desafios, descobertas que, a ser bem feita forçosamente trará?

Régis Marcon - Clafoutis a la rhuibarbe
(Autor: Laurence Barruel)

Contem-me lá vocês.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Japonês em Lisboa

Os aficionados da gastronomia japonesa têm mais uma alternativa às "chinesices" do Martim Moniz: nas Avenidas Novas, abriu recentemente a Goyo-Ya, mercearias e utensílios do país do Sol Nascente.


Pequenina mas cheia de coisas básicas, poupa o caminho até à Baixa de quem trabalha mais a Norte.

Rua Filipe Folque, 30
Aberta de 2ª a Sábado, das 10 às 20 (se ao menos os horários nacionais fossem tão client friendly como este talvez houvesse mais clientes fora dos shoppings...)