sábado, 7 de janeiro de 2012

Daniel Humm

As palavras do chef Daniel Humm (Eleven Madison Park ***) num artigo da Saveur do passado mês de Outubro, a propósito da edição do seu livro:

"O aspecto visual dum prato é tão importante; as formas e cores e desenho global têm de atingir o estado de espírito certo e transmitir a ideia certa. A inspiração para este prato

(Fonte: Saveur.com ; Autor: Francesco Tonelli)
veio da minha primeira visita ao Japão, onde descobri o umeboshi

(Fonte:Wikipedia)
essa incrível ameixa salgada em pickle. Pensei de imediato no foie gras; a fruta amarga e salgada ligaria tão bem com a forte cremosidade do fígado. A ameixa é a última fruta com caroço da estação e este prato é a sua celebração em todas as formas: um pouco de puré de ameixa fresca, umas gotas de geleia de vinho de ameixa reduzido e combinado com vinagre de umeboshi, sal e agar-agar. Para acrescentar uma textura luxuriante, discos de gelatina feita com um consommé de ameixa avivado pelo vinagre de umeboshi. A geleia derrete-se no calor da boca porque é feita com gelatina, a qual é fácil de usar: amacia-se as folhas em água fria e acrescentam-se a qualquer líquido para o firmar. Também provocamos as ameixas fazendo uma tuile e um areado (crumble) a partir de amêndoas amargas, que são os caroços processados de modo retirar as toxinas que contêm. É importante utilizar toda a fruta, caroços incluídos.  As folhas mentoladas de shiso

(Fonte: Wikipedia)
e as pétalas de bolbo de lírio ecoam o tema japonês e servimos foie gras marinado em vez de cozido, o que funciona muito bem com ingredientes crus. Se não se quiser fazer a receita completa, pode-se servir um patê de foie gras ou uma terrina e guarnecer simplesmente com um ou mais dos preparados de ameixa.

(...)

(Fonte: Saveur.com ; Autor: Francesco Tonelli)


Há algo nesta lagosta cozida com funcho, laranja e diospiros que me evoca os cozinhados de Natal. Ainda que seja um prato invernal, é leve e luminoso e você sentir-se-á bem depois de o degustar, graças aos sabores cítrico e a alcaçuz do funcho. Usamos muitas expressões de funcho: combinado com a batata, faz um puré rico e com notas de terra; a rama verde acrescenta uma nota fresca e verde; e a versão braseada oferece um sentido voluptuoso, feito em casa, algo que as pessoas possam referenciar - é preciso isto num prato. Preparamos igualmente o funcho cozendo-o em vácuo com azeite num saco Cryovac, comprimindo os ingredientes para os insuflar com o sabor. Mas pode-se saltar este passo e usar fatias cruas em substituição. Depois de cozer a lagosta, escalfamo-la em vinho branco, sumo de laranja, natas e manteiga. Do mesmo modo que salgado, amargo e doce, é também sempre necessário um pouco de picante no prato, pelo que acrescentamos piment d'Espelette ao molho. Acentuamos o sabor da lagosta com um pouco de óleo de ovas de lagosta que fazemos misturando as ovas com óleo de canola e um pó obtido da desidratação e posterior moagem das ovas. Mas pode simplesmente aquecer as ovas e com elas pincelar a lagosta.

(...)

(Fonte: Saveur.com ; Autor: Francesco Tonelli)
Devemos ter experimentado dez modos diferentes desta salada de beterraba e queijo de cabra, ao longo dos anos. Veja, não estamos a tentar inventar a roda. Há uma razão para tentar estas combinações uma e outra vez - são clássicas. Mas tentamos servi-las de um modo que realce ainda mais os sabores. Usamos inúmeras variedades: beterraba vermelha que é a mais doce; beteraba amarela que têm um sabor mais acentuado, quase como o nabo; e as bonitas beterraba Chioggia. 



(Fonte: thekitchn.com)
São temperadas com azeite, sal e açúcar, e assadas com vinagre de vinho tinto, cobertas com folha de alumínio, de modo a que os temperos penetrem a pele. A vinagrete é feita com sumo de beterraba; preferimos quando os componentes de um prato sabem ao que são, quando os sabores estão mais concentrados. Fazemos uma mousse de queijo de cabra muito leve, para um contraste de texturas, mas pode usar em alternativa queijo fresco de cabra. A guarnição de tuiles de caraway, um areado de centeio e flores frescas de aneto foi inspirada pelos sabores das "mercearias" (delis) de Nova Iorque que tão bem trabalham com beterrabas e queijo picante. E temperamos o prato com flor de sal porque têm um sabor crocante e acentua magnificamente os sabores, não sendo demasiado salgado. São as beterrabas doces que sente, não o sal."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Finger Limes

A Gilt Taste anuncia hoje no seu site a venda deste fruto ainda pouco conhecido nos EUA. (O que diabo são finger limes - finger food alimada?)

Pela foto,

(Fonte: Gilt Taste)
parecem limas com um formato alongado, com um curioso interior:

(Fonte: Gilt Taste)
São citrinos.

Diz-nos o site que são originárias da Austrália e Nova Zelândia, já existindo produção na Califórnia. E passo a citar: "Variam entre o tamanho de um amendoim e o do nosso dedo mindinho. Dependendo da altura do ano, a casca pode ser verde escura, laranja ou amarelo clara e as pequenas pérolas do seu interior douradas ou rosas, amarelas ou verde claras. São menos amargas que as limas e o seu aroma mais próximo da combava (kaffir lime). Retire as pérolas com uma colher e utilize-as em coktails, polivilhe ostras ou adicione-as em sobremesas à base de citrinos."

Os australianos chamam-lhe o caviar citrino.

O LA Times explica melhor :

"Ao contrário dos alvéolos em forma de lágrima dos citrinos correntes, as vesículas translúcidas, esverdeadas ou rosadas, das "limas-dedo" são arredondadas e firmes, rebentando na boca como o caviar, libertando um sabor que combina limão e lima com notas verdes e herbáceas. O óleo da casca é igualmente aromático, contendo isomentona, comum na hortelã mas rara nos citrinos.

O que fazer com estes prodígios em forma de dedo? Como a restante família, são demasiado amargos para serem comidos simples mas, mesmo assim, da primeira vez que tomar contacto com eles, experimente as suas esferas, esfregando algumas nos dentes, como pasta de dentes, de modo a percepcionar o seu sabor ao máximo. (...)

O restaurante Craft utiliza uma vinagrete que contém o que denomina "caviar de lima" tanto no sashimi hamachi como nas ostras Kumamoto. "Quando as esferas de sumo explodem na boca, acontece uma explosão de sabor", diz o chef Anthony Zappola. "Os clientes ficam surpreendidos, julgam que é algum tipo de gastronomia molecular e espantam-se ao descobrir que é uma fruta.
"


A Australian Fingerlime Growers Association, como seria de esperar, desenvolve um trabalho profundo de investigação (junto da indústria restaurativa) de aplicações gastronómicas e de mercados o qual pode ser melhor analisado no seu site.


(Fonte: Australian Fingerlime Growers Association)


Um pdf com algumas receitas pode ser importado a partir daqui.


Se um dia destes um chef mais empreendedor quiser arriscar, I'm game. Ou neste caso, fruta.

Gastroescritas - Guia Culinário da Praia da Aguda

[Intróito:
Assistia eu ontem a uma entrevista televisiva no intuito de melhor compreender a decisão dos grandes  accionistas portugueses se retirarem com armas e papeis para mercados mais favoráveis quando algumas frases me chamaram a atenção. Dizia o entrevistado que, mais importante do que andar a discutir esta questão contextualmente menor, seria o Parlamento debater o que a troika no seu relatório considerou como indícios de abuso de posição dominante no relacionamento entre as grandes superfícies e os produtores. Expressões como "esmagamento de preços", "prazos de pagamento incomportáveis" foram utilizadas levando-me a constatar de que ainda há cidadãos que não só sabem pensar como têm coragem de expressar publicamente esta evidência que o poder teima em oficialmente ignorar.]


Ao voltar a folhear este precioso, delicioso, informativo livro - que não só ensina muitos dos modos locais de preparações culinárias como regista e descreve para memória futura toda a matéria prima marítima disponível na praia da Aguda (na costa de Vila Nova de Gaia, sul do Porto) - para o aqui apresentar, reencontrei a seguinte frase:

"Alguns dos peixes referidos, como por exemplo as ranhosas, os bodiões e as salemas, não aparecem na lota por falta de procura. "

E ao lamentar a perca da experiência de prova de qualquer destas espécies a que muitos estarão sujeitos por não terem por fornecedor um peixeiro com suficiente codícia para os comprar e revender ensinando, não pude deixar de me lembrar da tal "posição dominante" e da eliminação de uma significativa maioria do tecido das micro-empresas de comércio alimentar verificada nas duas últimas décadas. Onde está o peixeiro de bairro, conhecedor de uns e outros? Onde o pequeno comércio de proximidade? Tudo levado pelo rolo compressor da grande distribuição.

Voltando à obra...

78 receitas para 37 peixes, 8 crustáceos e 7 moluscos, dos quais pelo menos a

azevia, badejo, camarão, carapau, cavala, choco, choupa, congro, dourada (legítima), faneca, linguado, lula, mexilhão, navalheira, percebe, pescada, polvo, raia, robalo (legítimo), rodovalho, ruivo, salmonete, sardinha, sargo, sável, solha, taínha, tamboril, trac-trac,

de Janeiro a Dezembro, umas vezes não, umas vezes ocasionalmente, outras abundantemente, são adquiríveis na lota da praia da Aguda. Que "começou por ser feita no grande areal, em seis compridas mesas de madeira, colocadas perto da linha da maré, conforme o estado do mar. Depois esteve provisoriamente instalada ao lado da Casa dos Pescadores, na Rua do Mar, não passando de um caminho primitivo de areia onde o pescado era colocado em caixas de madeira, no chão, Ainda antes dos anos cinquenta, a lota foi implantada no sítio actual. (...)"

Fiquei curioso com o trac-trac (vocês não ficaram?). Ensina o livro que é a denominação local para o peixe-porco (balistes carolinensis para os eruditos de linnaeus), peixinho de alguma dimensão (até 40 cm), "corpo alto de forma oval, comprimido lateralmente, de cor cinzento-esverdeada com manchas-azuis; tem três espinhos típicos na primeira barbatana dorsal (o primeiro raio é usado para se fixar em cavidades rochosas)". E indica também uma receita de filetes, com molho de vinho branco. Receita simples, de filetes marinados em limão e molho inglês, passados em farinha e fritos, regados com um molho de cebola refogada e estufada com limão e vinhho branco. Simples, mas eficaz (ainda que o molho inglês...)

Aconselho rapidez na procura porque, estando cada vez mais as livrarias atacadas pela febre da renovação-devolução constante, poucos espaços mantêm para obras de saída mais lenta. Ou se compra logo ou muito haverá que palmilhar pela net até as descobrir...

GUIA CULINÁRIO DA PRAIA DA AGUDA, Mike Weber, Assunção Santos, Ana Ferreira, Ed. Afrontamento, Porto, 2ª Edição Junho de 2011

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Fäviken Magasinet


O mundo da gastronomia parece entrar numa fase "realismo mágico".

(Lembram-se do tempo em que o sucesso literário internacional era a ficção sul-americana, de preferência seguindo as pisadas do "Cem Anos de Solidão"?)

Pelas referências internacionais que se vão lendo, pelos galardões, pelas presenças nos festivais, a tendência gastronómica valorizada actualmente é, cada vez mais, a da cozinha "exótica". Não me interpretem mal: não a cozinha exótica tradicional, indiana, chinesa, sul-asiática, antes a exoticamente europeia ou seja, longe dos grandes e tradicionais centros de emanação de cultura culinária, França, Itália ou Espanha.

(Porquê "exótica"? Porque escapa aos produtos, à "indústria", à postura costumeiros)

O centro do mundo gastronómico está a relocalizar-se.

O NOMA foi o primeiro sinal.

Outros se aproximam das luzes da ribalta como este Fäviken Magasinet, situado nos confins dos confins da Europa, lá onde as renas perderam o rumo (Jämtland, Suécia, se querem mesmo saber). Orquestrado por Magnus Nilsson, chef (27 anos) com traquejo francês (L'Astrance, L'Arpège), pratica uma cozinha devota dos produtos e dos modos de preparação locais.

Vieiras não temperadas, grelhadas sobre um um lume de ramos de zimbro
"No Fäviken, temos paixão pelas matérias primas e sentimo-nos humildes perante o potencial fantástico que Jämtland, Tröndelag e, em particular, Kallbygden oferecem ao nosso trabalho.

Fazemos as coisas exactamente como elas têm sido feitas desde sempre nas quintas de montanha de Jämtland: seguimos as variações sazonais e as tradições existentes, Vivemos com a comunidade. Durante o Verão e o Outono, no máximo da maturidade de cada ingrediente, colhemos o que cresce nas nossas terras e refinamo-lo recorrendo aos métodos que redescobrimos nas nossas ricas tradições ou que encontrámos na nossa busca pela qualidade.



"Uma clareira na floresta no final do Verão"
Cubos de carne de alce crua, ervas da floresta, pão ralado,
geleia de vinagre e gotas de natas, gemas 
Armazenamos antes dos escuros meses invernais, secamos, salgamos, fazemos geleias, picles e engarrafamos.

Galinha brava (black grouse) cozinhando docemente num pote de ervas secas apanhadas nos prados vizinhos de Fäviken

A estação da caça começa após as colheitas e é um tempo importante, um tempo em que cuidamos dos alimentos excepcionais que as montanhas nos oferecem. Do mesmo modo que o homem vem fazendo há séculos, para poder enfrentar os negros e gelados meses. Quando a Primavera e o Verão voltam a Jämtland, as arcas estão vazias e o ciclo recomeça.

E finalmente, preparamos comida a sério." (
do site)






"No velho celeiro estabeleceu-se um restaurante diferente. Uma cozinha não como as outras, com uma filosofia baseada na das antigas quintas de montanha."

Matérias primas locais. Técnicas e modos seculares. Intocados. Não afectados pela massificação do gosto. 


Parece promissor. Parece uma tendência também, não é?

E tendência será também esta - não lhe chamaria arrogância nem petulância, antes afirmação que se extrai do modo como descrevem o menu:

" O menu no Fäviken é variável, de acordo com a disponibilidade dos ingredientes, mudando quando um deixa de estar disponível. Não mudamos os pratos "porque sim", preferimos esperar por um novo ingrediente, ideia ou prato que seja realmente melhor que o predecessor. Muito do que servimos tem o seu período de vida e permanece no menu por longo tempo, evoluindo lentamente para algo completamente diferente do original, apesar de manter o nome durante toda a sua vida.

Gelado de framboesa selvagem
A primeira vez que visitar o Fäviken Magasinet não poderá escolher o seu menu; apresentar-lhe-emos uma variedade de pratos que, acreditamos, representa o que somos e a corrente estação. No entanto, se nos visitar regularmente, terá um maior controlo sobre a sua visita. Será frequentemente brindado com ingredientes raros e nem mesmo nós conseguimos obter em quantidade suficiente para satisfazer doze visitantes."


Alho francês de conserva, natas de leite de ovelha batidas com cerveja de vinagre fermentado e ovas de bacalhau raladas
Ah.

""De dänne de e rektún nat de, mat at n kaer". Comida a sério, comida para um homem. A tradução literal é bastante insípida mas não é a literalidade que é importante, antes o seu sentido. Todo o momento condensado numa única frase, comida rektún, é onde posteriormente consumi tanto do meu tempo a tentar reproduzir para os outros - frequentemente em contextos e lugares muito mais sofisticados. Por vezes a expressão foi quase esquecida, dando lugar a coisas mais excitantes e transitórias, mas de alguma forma foi sempre um guia, algo que agora se transformou na premissa do que fazemos aqui no Fäviken.
Ovas de truta selvagem levemente salgadas num cesto de sangue de porco seco 
Respeitamos as nossas matérias primas no que são, na sua aparência e na sua origem. Lutamos para monitorizar a produção de cada ingrediente da semente ao prato. Aceitamos as escolhas da natureza e aoplicamos os nossos conhecimentos de modo a maximizar o potencial de cada produto. Concentramo-nos na sua colheita, preparação, confecção e apresentação. Apresentamos cada ingrediente do modo que melhor se adaptam aos sentimentos que geram durante o processo de criação da comida rektún.

Não seguimos tendências. Servimos o que queremos, quando queremos.

Respeito, controlo, selecção, concentração, apresentação.

Comida rektún."

Cabrito grelhado, bróculos cozidos em vapor, batatas lentamente fritas em banha levemente rançosa (?),
um creme de ovos de pato e queijo amadurecido
O Fäviken é também um pequeno hotel (B&B, presumo), o que dará jeito a quem vier de longe até à imensidão do centro da península escandinava.

Quem de lá vier, notícias dê, sff.

(Nota: todas as fotos retiradas do site do restaurante)

Nota adicional: Magnus Nilsson estará presente no 6th Annual International Gourmet Festival / Tribute to Claudia 2012 (a realizar entre 12 e 22 de Março) a solo no dia 17.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Uma bica como remédio


Tenho a fotografia - deveria dissertar sobre ela, mas escrever o quê? É uma "chávena" original servida na esplanada do restaurante situado no edifício da ANF...

Em vernacular jornalístico (e não só) chama-se a isto "encher chouriços".

Acho eu que não sou jornalista e só gostaria de o ser se me pusessem a palmilhar o mundo a descobrir histórias, ficar em magníficos hotéis, beber dry martinis shaken not stirred e ter sempre uma loura - natural - espampanante... ehr... esperem... para isso teria de ser agente secreto com licença (com licença? faxavor!) para matar e, dados os cortes nas nossas secretas, parece-me um bocado improvável (a parte das louras, claro).

Hum. Tergiverso.

Onde é que eu ia? (Não "ia" pois não? Não, enquanto estiver aqui sentado a escrever isto, parece aquele "então vá / tá bem, mas vou onde?" que esteve mais na moda do que já está, se calhar foi por causa desta piada que o Herman inventou há uns anos) (Bof. Perdi-me outra vez. Ah!) Estava eu a escrever sobre chouriços - o que me parece uma coisa excelente para dissertar num gastroblog português - e o modo de utilizar o seu enchimento para ocupar uma página inteirinha sobre... nada.

Parece o Seinfeld - também ele fez uma série de ultra-mega-sucesso sobre nada. (Lembram-se do Seinfeld? Daquele genérico feito com nove notas tocadas num baixo tum-tumtumtum-tumtum-tumtumtum, nove viram?) Já que falo nele, porque não recordar o episódio do nazi das sopas, um maníaco pela sua sopa e pelo modo como a clientela se deveria comportar...


Aqui fica.

Recorda-me alguns restaurantes onde fui, com donos que se julgavam proprietários do mais exclusivo e conceituado três estrelas do mundo...

Tenham um bom fim de tarde.

Darwin's Cafe, Lisboa: uma selecção pouco natural



Na recente grande peça de audácia arquitectónica magestaticamente implantada onde até agora parecia não ser possível edificar, nasceu este café de Darwin, restaurante de apoio/âncora da Fundação Champalimaud. Meritória fundação, repositório de parte da fortuna deixada pelo grande industrial, com uma grande equipa empenhada em alcançar rapidamente os propósitos pretendidos: investigação de ponta, estimulando "descobertas que beneficiem as pessoas" e o patrocínio de "novos padrões de conhecimento".


Espaço de decoração e dimensões simpáticas, afectado pelo descomunal pé-direito, um tudo nada desconfortável (desconforto agravado pelo ecológico pensamento sobre a energia dispendida para o seu condicionamento térmico). Área de restauração estendida até ao exterior, uma esplanada sobranceira ao rio, com vista para os ícones habituais, os pescadores, a zona industrial da margem sul e tudo o mais que faz desta cidade a mais atlântica da Europa.


Carta insípida, com escolhas quase totalmente banais, sem correspondência nos poucos banais preços e muito longe da apregoada "cozinha internacional de autor" (o que é, desde logo, uma contradição em termos).



Carta de vinhos curta, com a saudável opção a copo (alguns).

Serviço fraco, com desatenções, esquecimentos e lentidão inaceitáveis neste standard.

Muito pouco, muito pouco...

À saída, repara-se nesta frase,


e sai-se com uma dúvida perturbante: faltará inteligência aos responsáveis por tão poucas possibilidades de sobrevivência ou será a mim que ela falta por não perceber que esta tão fraca oferta está cheia de possibilidades de sucesso numa cidade com cartões de empresa a mais e exigência a menos?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Cinco euros de Natal

A expressão, foi o senhor meu pai quem a começou a usar, apaixonado por tudo quanto era inglês, coisa estranha no seu tempo, apesar das ligações históricas, num país que se devotava integralmente a França. "Carol do Natal", chamava-me ele, aproveitando a coincidência do nome que minha madrinha escolheu com a data do meu nascimento para evocar Dickens de quem gostava especialmente, sendo como era um eterno romântico com uma preocupação especial com a sorte dos desvalidos.

Crismaram-me Carolina mas não me lembro de ouvir alguém chamar-me assim. Em casa de meus pais era Carol e para toda a Lisboa - ainda hoje, tantos anos passados pela minha partida... - sou Madame B., o apelido da família de minha mãe que os afrancesados lisboetas confundiram por gaulês e consideraram mais chic utilizar.
(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal)
Herdei esta casa de meu marido, com quem me casei já tarde, um retirado cantor de opereta de sucesso passado, dedicado aos negócio dos livros antigos, paixão tardia com que tentou colmatar as falhas que uma gestão pouco cuidada das suas economias tinha criado. Partiu após poucos anos de vida em comum e deixou-me numa situação difícil, só salva pelo bem sucedido conselho de uma amiga que me lembrou o gosto da cidade pelas roupas caras e o pouco dinheiro que tinha para o manter. Passei assim a alugar fatos de cerimónia para festas e ocasiões especiais. Valeu-me primeiro a intemporalidade do guarda-roupa teatral que meu marido tinha guardado e mais umas quantas peças que herdara. Com o tempo, o jeito de umas quantas costureiras e muitos magazines chegados no primeiro correio de Paris, tornei-me a referência a que todos recorriam - os mais modestos e os aparentemente ricos...

Tive uma boa vida - há muito que a deixei. Sobreviveu-me este prédio e a tabuleta com o meu nome que ainda perdura encimando um primeiro andar que há muito deixou de ter clientes. Mas o prédio, esse, continua vivo, especialmente a minha vizinha de cima e especialmente nas noites de jantares festivos. Não sei porquê, hoje que é dia de um desses jantares, deambulo por entre as suas salas e a cozinha, no meio de tanta gente animada. Ninguém parece reparar em mim, o que é estranho.

Alexia, a dona da casa, entra de semblante carregado. Reclama com a qualidade do puré, com a cozedura do entrecosto. Pensará nos gostos tradicionais dos Natais passados? Pareço recordar-me de lhe ter ouvido em tempos histórias da sua infância na Beira.


O cozinheiro não parece perturbar-se, encolhe os ombros e pergunta por um abre-garrafas, há meia-hora, diz, que tento tirar a carica desta garrafa de leite de coco. Não me parece que existam cocos na Beira - será por isso que Alexia não lhe responde?

Grande alarido - eis que um casal chega, ele de suiças graves (ah como meu pai chegou a usar que saudade!) e ela que me parece espanhola pelo sotaque e a animação. Natal animado o deste ano, tanta gente, de tanto lado do mundo, um Natal de alegrias, como deveria ser sempre, de reencontros.

Venho até à sala. Começa a estar cheia e farta a mesa.






À sua volta fluem as conversas, os reencontros, as apresentações. Alguém pergunta porque está o piano fechado, sugere música, canções. Mais música? Oh meus pobres ouvidos, tão atacados pelos ecléticos gostos de Alexis nestas madrugadas de convívio... Fujo, volto à cozinha, cheia de um enleante aroma de carne bem assada. Hoje os pratos parecem mais atrasados. Finalmente decidiu-se a conversão da abóbora em creme. Oh, o que é aquilo? Enchidos, montanhas deles, alheiras, paios, paiolas, chouriços, morcelas, terá comprado Alexia todo o expositor?

Inspiro, sem repararem, o vapor que um tacho exala - subtil combinação para o que me parecia ser um refogado, leite de coco e azeite de dendem, dizem-me as latas usadas e abandonadas a um canto do balcão. Que feijoada é esta, interroga quem chega. Uma expressão luso-brasileira, responde quem está.



Corta-se presunto, corta-se chouriço. Recheiam-se cogumelos com alheira.




Dois pares de mãos afanam-se a transmutar pernas de peru em pedaços de espetadas.


O cozinheiro larga tudo e parte em corrida atrás de uma criança brincalhona. Depois volta e resmunga com o risotto, nunca fiz uma coisa tão seca. Cheira bem o risotto, parece-me ter visto ser-lhe acrescentada uma farinheira no início.



Eis que os últimos pratos chegam à sala (acontecem-me estas coisas, o tempo tem oclusões, não me é contínuo).





Alargam-se as conversas, os risos. Eis-me instalada à cabeceira, olhando tudo e todos. Uns olhos infantis que riem quando provam, uma farripa de presunto. Duas estranhas que encontram interesses profissionais comuns. É isto o prazer presente, o prazer de partilhar.



Umas pequeninas mãos percorrem as teclas do piano em ainda inábeis descobertas. Todos sorriem, apesar da provação. Ali reside o espírito dos Natais futuros... Alguém decide uma abordagem mais profissional e acompanha a jovem diva em duas canções de Purcell. É a vez da criança se queixar dos ouvidos, mal habituados aos extremos de soprano.


Eu abstraí-me um pouco, a mirar gulosa Eduardinhos e macarons. Se ao menos tivesse saúde para os comer...