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segunda-feira, 25 de março de 2013

As novas tascas (I)

Para um lisboeta é um lugar comum ouvir um lisboeta dizer que Lisboa é uma terra de tascas. FOI uma terra de tascas. De tabernas, de quem se dizia serem porta sim porta não com as porta não porta sim igrejas.

É curioso usar-se a expressão "lugar comum", quando uma tasca - a tradicional, aquela com um vicente à porta, um barril ao fundo e um balcão de mármore a intermediar... não, menos, a tradicional com um ar chunga, cheiro a fritos e petisqueira que, em retrospectiva nos faz salivar e mentalmente lamber os dedos - é, hoje em dia e legislação sanitária europeizada em mente, um lugar incomum.

Zelosos e cumpridores law enforcers que se seguiram a cumpridores e zelosos legisladores fizeram por higienizar todo o tecido restaurativo da cidade: azulejaram, inoxidaram, fluorescentaram, desengorduraram, normalizaram gosto e sabor. Mataram - ou pelo menos enterraram sobre cosméticas carradas de HACCPs - esse passado que a presente ausência nos faz teimar em glorificar.

É tão português suspirar por algo que passou a bestial depois de morto.

Bom. O mundo pula e avança com toda a força do que tem de ser. E se para nós tugas, o respeitinho ainda é - pelo menos às claras - muito bonitinho, para a panóplia de imigrantes que nos enchem as ruas de colorido e os bairros populares de uma vivacidade sem IVA, o lespeitinho é coisa de gweilo.

Assiste-se assim, nessa Lisboa renovada de actividade, ao renascimento da tasca-instituição.

(Fotografia de base: Autoria - Joshua Benoliel; Arquivo Fotográfico CML)
Uma profusão quase porta sim porta não de restaurantes familiares, com cozinheiros/as de mão cheia que nos transportam às ruas de muitas das cozinhas regionais chinesas, bastando para tal deixar cair o duplo véu de desconfiança de restaurador e clientes.

Apesar dos zelos que, mais tarde ou mais cedo, hão-de cair, em mediaticamente calculadas operações, sobre estas micro-micro-micro-empresas, não tenho dúvidas de quem irá sair vencedor: o palato dos curiosos e a tenacidade dos mais teimosos.

Aqui ficam as mais recentes descobertas, experimentadas numa destas noites, algures na cidade: uma lição de gostos, texturas, equilíbrios de cores, concentrados em poucos gestos, meios económicos e simplicidade de pratos. Uma cozinha milenar ao virar das esquinas. Vale a pena conhecer, já que a nossa teima em sobreviver envergonhada, perdida em modernices que desconhecem a modernidade ou paralisada em imitações de mau tom, pouco sabor e menor amor.



Frango Kung Pao


Guotie

Pak choi e cogumelos shiitake: é difícil fazer melhor com tão pouco (tão muito?)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Do Gastrodré à Baixa, comé

Um percurso possível. Um contador de histórias valioso - André Magalhães. Vontade de olhar e de provar, de evocar e recriar.

Começamos como começavam quase todos os madrugadores passantes pelo Cais do Sodré: com uma bucha no quiosque e um café incrementado… com um cheirinho, como se dizia em bom lisboeta da silva dos meus tempos de Bernardim.


Cais do Sodré também de marinheiros, em demanda ávida de alimento para diversas fomes, nos tempos áureos do comércio marítimo ou da fria guerra de nervos com que terminou o aceso tráfego militar do Atlântico Norte. Em acentuada decadência o vário mercadejar da zona, atentando-nos nós no que se pode citar a todas as horas do dia sem perigo de sobrolhal censura ou de taipais cerrados pela imprópria hora da manhã.


Humildes tascas em purgatória descida, mantidas por donos de outras eras, em fim de vida ambos, sem perspectivas de continuidade.


A Casa Cid, em frente às traseiras da Ribeira, representante honesta da cozinha de mão-cheia, com oficiante destro e conhecedor e onde vale a pena abancar, sem tempo, para atentamente distraído, encher os ouvidos de histórias, de linguarejar alfacinha e da boa petiscada que ainda resiste.



Comida de rua em balcão de zinco, jaquinzinhos, torresmos, croquetes, brancos em copos de três e um sorriso satisfeito, apaziguado, beatífico.





O British Bar, que foi queirosiana Taverna Ingleza,



onde o tempo anda para trás,



escritório oficioso do José Cardoso Pires e de inúmeras dúzias de bons malandros, sede de muita sede, afogada em Ginger Beer e Altedouros, as estrelas caseiras da britânica casa.


A pastelaria Caneças.





A mercearia Cabaça de Mel, com biscoitos que foram gesta marítima e são delícia para a comunidade cabo-verdiana,



situada na travessa do Cotovelo, onde em tempos se comiam as melhores iscas com elas de Lisboa, sujeito de venerável texto de Albino Forjaz de Sampaio, gastrónomo de uma passada Lisboa que, canoa de vela erguida, nunca, nunca, nunca mais.



As lojas de secos e molhados da rua dos Bacalhoeiros, com feijões de todas as latitudes, tripa genuína para enchidos caseiros, bacalhau de cura amarela a salga de riso amarelado e peixe seco para comunidade africana consumir.



A Baixa, já ali a seguir, com os seus restaurantes galegos, ex-casas de pasto e abardinados restaurantes caça-níqueis de turistas, encantados com o decrépito very typical, história para outras histórias...