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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

See you, Sea Me


Abriu há menos de um mês, na Rua do Loreto (que é a rua que liga o Chiado ao Largo do Calhariz, onde está o "palácio" da Caixa Geral dos Depósitos), um restaurante dedicado aos produtos do mar. Chama-se "SEA ME" e os seus proprietários nele procuraram uma amálgama de vários conceitos numa tentativa - penso eu... - de diversificar clientelas e procurar tapar eventuais e temporários financeiros de uma área com o sucesso das outras. Assim sendo, ele é, em simultâneo, um restaurante e uma peixaria, um local de grelhados, um sushi-bar e uma marisqueira. Confusos? No local, a coisa parece não resultar mal, ainda que o lado da venda directa me pareça subvalorizado e pouco incentivado, mais um subproduto que uma actividade estrela. O que é pena. Tirando a peixaria do El Corte Ingles e algumas bancas espalhadas pelos mercados municipais, não há muitos locais onde se possa encontrar não só bons espécimes como um bom aconselhamento sobre os mesmos, melhores maneiras de os preparar e - aqui viria a mais valia deste local - receitas alternativas.

O espaço em si é visualmente acolhedor, trabalho óbvio de arquitecto (por oposição ao trabalho de jeitosos ou curiosos que muito pulula pela capital), ainda que com algumas falhas. Não se compreende, com a legislação existente e com as campanhas de sensibilização efectuadas desde há anos, que um espaço refeito totalmente, apresente barreiras arquitectónicas a deficientes, como é o caso, com a existência de degraus (em vez de rampas) entre a rua e o nível de entrada e entre este e o espaço restaurativo. Não compreendo igualmente como os técnicos camarários aceitaram esta solução no licenciamento ou como a deixaram passar na fiscalização. Enfim, buracos nas malhas que a autarquia tece... Segundo ponto negativo é o recurso, em parte das mesas, a bancos - são desconfortáveis! Podem resultar muito bem na fotografia, mas desafio quem os escolheu a passar duas horas à mesa sem um apoio lombar. Talvez resulte para masoquistas e atletas... mas é só esse o público alvo?

Vista geral da sala (fonte: site dos autores do projecto 4+ Arquitectos:  aqui)

Dedicando a nossa atenção às opções culinárias e ao que é posto à disposição do cliente.


Do lado do peixe, não notei nas duas vezes que lá fui, diferenças em relação à oferta da maioria dos restaurantes especializados: independentemente da frescura e qualidade que aparentam, a variedade é limitada - cherne, salmonetes, besugos, linguados, raia, robalo, chocos, mais os habituais produtos "de piscina". Do mesmo modo, entre crustáceos e moluscos as opções de escolha não passam do trivial ainda que se faça a reserva das respectiva frescura e qualidade: lavagante, lagostins, camarão tigre, ostras, mexilhão... Como peixaria, valerá a pena a viagem? Já que se pretende diferente e marcante, não valeria a pena alargar a pesquisa de fornecedores e procurar noutras lotas o que a de Lisboa não oferece?

Belíssimas peças tem o sushi-bar - como seria exigível - a merecer aprovação sem reservas.





Quanto à cozinha - e só se experimentaram pratos da carta de entradas e do sushi-bar - só tenho uma palavra: excelente. Preparação cuidada, fritura no ponto, óptimo sentido de combinação e arranjo no prato. Alguma inventiva nas preparações e um correcto sentido do gosto. A experimentar e a re-experimentar vezes sem conta - porque a equipa merece ser incentivada e provocada a alargar ainda mais o seu espaço de criação. Uma única chamada de atenção (asneira felizmente ausente na segunda visita) para o estado de conservação da salada apresentada no prato: folhas com as pontas acastanhadas, indicador de excesso de tempo no frigorífico são de todo inaceitáveis em qualquer espaço restaurativo.

Pataniscas de caranguejo.
 A salada ao fundo, completamente inapropriada para consumo,
má nota para quem aprovou a sua utilização.

Pataniscas de caranguejo: saborosas!

Carpaccio de atum, a frescura do tonídeo numa bonita apresentação,
infelizmente afectada pela má qualidade das verduras, veja-se as pontas da alface frisada
e as folhas murchas das alfaces de cordeiro

Vieiras coradas, tártaro de manga e flor de sal: boa cama, bela apresentação, melhor sabor

Hot salmon: Um makisushi com salmão (cozinhado?)
e pera abacate envolto em polme e frito
Hot salmon

Línguas de bacalhau em tempura

Tarte de alfarroba com gelado de figo


A carta de vinhos é bastante razoável na extensão e diversidade, com a agradável característica de incluir algumas referências a copo, o que é de saudar.

Os preços das duas cartas são correctos - simpáticos mesmo, para a qualidade apresentada.

Quanto ao serviço, fomos confrontados com duas equipas diferentes, não se percebendo se alternam dias, horários ou foi apenas o acaso de folgas. Ao almoço, gente muito nova, com alguma falta de experiência, compensada largamente pela simpatia genuína e vontade de agradar. Dá gosto sentir esta preocupação com o cliente e perceber veracidade nas acções. Já a segunda "versão", ainda que com um registo mais profissional, pareceu-me pouco natural, forçada mesmo. Onde antes se sentia calor, descobriu-se frieza. Onde antes se adivinhava alguma inexperiência e "naiveté", sentiu-se agora mais "escola". Profissionalismo que ficou manchado, no entanto, pela lentidão de procedimentos: apesar da sala estar longe de repleta, os pratos ficaram minutos no balcão à espera de serem levados para as mesas e a distracção foi uma constante, sendo quase sempre necessário chamar a atenção do funcionário para pedir algo.

Quanto à mesa, contradições que não precisavam de existir, parecendo ser produto de um conceito mais racionalizado que sentido: o "espírito de uma peixaria de bairro" reproduzido nas mesas de madeira com toalhas de papel e copos de vidro grosso mas contrariado pelos guardanapos de pano e talheres Cutipol. Belíssimos talheres, note-se e confortáveis guardanapos...



Resumindo: apesar das falhas, o "Sea Me" merece a visita. Não sei quanto tempo durará - anunciar um restaurante como "trendy" é pisar uma mina: as modas não são efémeras? - mas, pela cozinha, mereceria durar. Quanto ao resto - e já que os degraus e os bancos não serão fáceis de remover... - aumentem a diversidade de oferta do peixe, criem suficientes alternativas para estabelecer a peixaria como uma referência e não como uma curiosidade, esqueçam a moda e estendam a todas as horas a vontade de colocar o cliente acima de tudo e terão um negócio florescente.

Classificação: Cozinha - 4.3/5 ; Global: 15.6/20

Sea Me - Peixaria Moderna
Rua do Loreto, 21 Lisboa - junto ao Largo de Camões
Telefone: 21 346 15 64/65