sábado, 9 de fevereiro de 2013

É que nem ginjas!

Já foi bebida intrínseca de Lisboa, hoje parece reduzida a ser emblemática, ponto de paragem para turistas em busca do very typical.

Dava-se a volta à Baixa, combustilizado por copinhos da dita, dos Restauradores à Mouraria, do Rossio ao Carmo.

Emigrou para Óbidos, onde faz as delícias do comércio local e pela capital dá corpo à esquizofrenia oficial que com uma mão louva e com a outra fecha.

Não percebo mas também não deve ser para nos esclarecer que o Estado existe.



Ginginha Sem Rival, Rua das Portas de Santo Antão
(
fundada no século XIX)

Ginjinha Espinheira, Largo de São Domingos
(
fundada em 1840 por Francisco Espinheira)
Ginjinha Rubi, Rua de Barros Queirós, 27
(
fundada em 1931)
Ginjinha da Mouraria, encerrada
Ginginha do Carmo, Escadinhas do Duque, fundada no século XIX
(FOnte: http://ginginhadocarmo.blogspot.pt/)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Como tordos


"Sou sincero e sou directo: o mercado é muito complicado, a vida está numa situação muito complicada, o Governo nunca ajudou e até nos cai em cima com impostos cada vez mais fortes (...) eu não sei quanto tempo vou aguentar (...) espero voltar a vê-los, ainda estar cá durante muito mais tempo mas se um dia ouvirem dizer que o Gemelli já cá não está, não levem isto a mal,
 (...)"

Chegou o dia então, o Gemelli fechou o Gemelli.

O José Júlio Vintém fechou o Tomba Lobos e foi para o Recife.

O Fausto Airoldi fechou o Spot São Luiz.

Todos os dias restaurantes fecham, nem em dia de caça aos tordos a pontaria é tão grande. 

Há dias, na Madragoa, entrámos num restaurantezinho simpático, vinte lugares, por aí, as luzes a meia-haste, a cozinheira/dona entristecida sentada numa mesa à espera de Godot. 

Nós fomos o seu Godot nessa noite, os únicos a aparecer. A noite foi simpática - os pratos, comida portuguesa de petiscar com um toque pessoal, souberam bem e não foram incomodativamente caros. 

Mas que ar de fim de festa no ar.

Mas que ar de fim de festa neste país. Quantos mais vão ter de falir para se perceber que se está a percorrer o caminho ao contrário?

E o que faz a ARESP, o que faz a ACPP, o que fazem as escolas de hotelaria e turismo para além de gemer, protestar baixinho, reagir?

Onde a proactividade? Se é quase declarada a intenção do Estado de dizimar grande percentagem do sector, quando é que os principais interessados no mesmo - os seus actores - começam a fazer diferente?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O mercado do Fialho

(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal)
 "Os gongs da Sé dão de repente quatro e meia—a hora das carroças que vão para o mercado. Eil-as que vem pelas quarenta portas da cidade, aos solavancos dos bois e das muares, com seus rodados biblicos e antigos. Algumas enormes, com os taipais em corbeille, lúgubres como sarcófagos, vem acoaguladas de ramas e canastras. Hortaliceiros guiam-n'as com gestos d'automatos, as grandes botas cruas, té á rotula, o varino no tronco em grandes pregas, e de barretes, aproados como mitras, a aguilhada ao hombro, dil-os-hieis colossaes evocações do mundo heróico, restauradas sobre uma entrada dos exércitos de Xerxes, em plena Grécia ...

(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal)
Outras, mais curtas, fueiros hirtos no ar. espendurando carne de boi, sangrenta, em nacos musculosos, parecem evocar, n'aquella nocturna sombra, lendas de patibulo, e na dianteira, em pé, uma espécie de gnomo barbaceno, arregaçado, d"azorrague na mâo, gorro de pelles, agita os braços, cinge de golpes a mula, entre jactos de pragas e expectorações de raiva biliosa. E approximando-se do mercado, o cortejo engrossa, carroças ás dezenas, jumentos com ceirões, grandes cavailos pernaltas, com pyramides de bilhas e de fructas.

(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal)
Aquillo formiga, confunde-se, agglomera-se; depressa o vozear toma phrenesis de lufa-lufa. no momento em que, vibrada a sineta do mercado as portas se abrem, e no vasto âmbito da praça as primeiras golfadas de provisões estatelam a sua turgencia horticula e a sua pantagruelica confusão. Desde essa hora, a agua-forte que primeiro esboçara na meia sombra, episódios desconnexos, toma de chofre linhas de quadro formidável. O mercado é sinistro, todo de ferro, acachapado e com torrellas nos ângulos, zimboriadas de negro, onde um ou outro laivo de metal chammeja cruamente.

Por cima o céu fúnebre, com aguaceiros pingando de bojo das nuvens muito baixas, restringe a elevação do olhar para as alturas, abafa os prédios sob fuligens trágicas, coladas, que o vento remeche sem conseguir mostrar pelos farpões, os azues d'alva. E os gallos cantam, vão-se abrindo um a um os cafés d'entomo á praça: é o Despique, o Valenciano, o Diogo, as tabernas de ginja, as baiucas de vinho e d'aguardente — Meio curto! —Duas bebidas brancas!—Cabaz!— Café e pão!

Enquanto as carroças aguardam lhes chegue a vez do descarrego, pares de gallegos trazem e levam dos depósitos perto, a pau e corda, montes de hortaliças: fios de gaz bruxuleam entro as naves da praça, como cirios accesos ante o altar do deus estomago, e os asphaltos abarrotam cada vez mais do provisões, um cheiro de hortaliça esmagada esthesia a narina; cinco horas! seis horas!. —e é quando entra do prostíbulo e da batota a gente que apodrece, e quando sae para a labuta a gente que trabalha."

(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal)



FIALHO D'ALMEIDA
Vida Irónica
(JORNAL D'UM VAGABUNDO)
2.a EDIÇÃO
LISBOA
LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA DE A. M. TEIXEIRA
1914


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

The Best disco in town

Há personagens bigger than life que nos deixam, perenes actos de vida, momentos de inspiração, biopics para Hollywwod. Bah. Inspiradores mas chatos. Been there, seen that, sessão vespertina de Domingo, sofá e pose garfield que há neura a mais e paciência a menos para revisitar a cidade e arredores.


Depois há personagens bigger than me.


Tão grandes nos gestos e no talento que me colocam no lugar. E o abraço que me dão, da amizade às guloseimas que me colocam à disposição do palato, deixa-me quase sem jeito na retribuição. Faço por isso. Digo uns disparates para disfarçar a emoção enquanto os olhos brilham, indecisos entre a admiração e aquelas coisas que não assistiam aos homens de antanho.




E provo. E saboreio. E peço mais. E divirto-me com as ideias fora da caixa e os caixotes de ideias transformados em acepipes, entradas, pratos principais, sobremesas.








É uma cornucópia, este Joe.










segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Dois dedos de conversa séria


Henrique Mouro e o Assinatura:

Rigor e simpatia. Disponibilidade e profissionalismo. Paixão e serenidade.

Um encontro com o homem por detrás de um dos grandes restaurantes de Lisboa é este conjugar de sensações. De se estar perante alguém que leva muito a sério a sua dádiva, a ponto de dela obter prodígios, casamentos excelsos, harmonias memoráveis.

Aqui fica um apontamento de algumas das suas ideias

O que é que o inspirou para este menu?

O produto, o produto, o produto. É onde vou buscar a inspiração e de onde nasce tudo. Gosto do produto quando ele é bom e é daí que nasce a selecção. Depois é a técnica o conhecimento que tenho do mesmo e a partir daí é tentar não estragar e extrair dele o que tem de melhor.

Os legumes...

Não precisa ser só carne ou peixe. Consumimos demasiada proteína animal. É um prato diferente mas que faz sentido por estar na mesma linha de trabalho.

A crise e a restauração, como se ultrapassa?

Com trabalho. Sermos fieis a nós próprios. Termos a capacidade de usar produtos menos caros mas com igual possibilidade de alcançar a melhor qualidade. Sem desvirtuar o trabalho e sem baixar a qualidade.

A crise... nota-se um decréscimo na frequência dos clientes, as pessoas estão muito mais contidas. Mas também temos dias simpáticos, temos turistas que vêm à procura da portugalidade...

Notou-se um incremento na procura depois dos artigos do Maribona e do jornal Die Zeit (tradução)?

Claro. Mas é estranho apercebermo-nos que às vezes é preciso ser-se falado primeiro lá fora para a atenção interna aumentar.

A estrela é uma ambição?

Não, sinceramente não. Não vamos mudar a nossa lógica para nos adaptarmos a supostos padrões do Guia. Vamos continuar a fazer assim, como gostamos, como sabemos. Se nos quiserem recompensar, aceita-mo-lo com todo o prazer e muito gosto. Mas não vou mudar. Não me vou vender. E até agora... no final do primeiro ano fomos recomendados. No segundo, vamos ver. Os inspectores já cá estiveram, irão voltar... veremos. O meu compromisso é com os meus clientes.

N.R.: Não foi ainda este ano. Mesmo na perenidade clássica há modas.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Para onde vamos?


Férias sabáticas, para começar. Limpeza das ideias, já cheias de material rejeitado e a reciclar, sobredoseadas com mais informação, extra-informação, lixo-informação.
Férias e um mês de ausência.

(Estou pronto?)

Final de mês e de ano com más notícias restaurativas, o encerramento do Tomba-Lobos a encimar a lista de todas as casas já fechadas, a corporizarem o que se teme e, como um doente condenado pelos sintomas, nos obstinamos a recusar como inevitável. Ler a História é conhecer o presente, de ecos de grandes restaurantes fechados prematuramente estão os registos cheios e, no entanto, este fechar de casas parece-se muito mais com uma encapotada e oficial condenação à morte do que com o normal correr dos tempos.

A ordem parece ser fechar tudo o que respira entre o luxo e a tasca normalizada em azulejo e alumínio. Há que reformatar a restauração em indústria exportadora e a mão-de-obra nela especializada em carne para canhão avulsa para usar barata nos amanhãs empresariais que se desejam.

Oh, apagada e vil tristeza. Precisamos de ficar remediados e de viver poucochinho, de acordo com as economistas ideias de que nos governa? Precisamos de voar baixinho, comer menus de 6 euros ou, melhor, levar de casa zébento boxes preparadas entre as novelas da véspera?

Precisamos mesmo de ser menos?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Uma desilusão no Linhó



Era uma promessa interessante, naquela Linhó do Chez Jules onde, quando a saudade das gálicas delicatessen aperta, sabe sempre bem ir e gasparar o orçamento.



Entrou-se acolhido pela sala vazia, pelo empregado singular e pela serena decoração.

Saiu-se uma hora e meia depois, com a mesma sala teimosamente vazia, o empregado ausente e poucas dúvidas quanto às razões de tanto abandono.



Um menu-bandeira-da-casa com boa apresentação mas gosto decrescente em abrandamento de esforço, inexplicável  face ao número de clientes (dois!) que mereceriam maior desvelo pela presença.

Um serviço que começou solícito mas rapidamente se desinteressou. Pouco atento às necessidades dos comensais (volto a frisar: dois, durante toda a noite), retirado da sala a maior parte do tempo, sem interesse em informar, a antítese do que deve ser feito para fidelizar a clientela.



Couvert e demais parafernália colocada na mesa sem solicitação, a preços completamente inflacionados face aos dos pratos principais.



Sem necessidade e sem saudades.