sábado, 17 de novembro de 2012

A very original lunch

Segunda face da medalha Tomo, aqui fica o registo de uma refeição mais "normal" (bah! onde estás tu, normalidade, nestas idas ao japonês retiro?) efectuada recentemente.

Colocados totalmente nas mãos do Mestre - e quando falo em "mãos" reitero a minha ideia de que, na sua bancada, o Mestre veste braços suplementares e trabalha não a duas a a uma dúzia de mãos, tal a velocidade da resposta - viajámos por um sério jardim de delícias que nos encantou com as suas texturas visuais, os seus sabores olfactivos, as suas complexas tessituras gustativas.




Destaco esta beringela, quase em puré, a liquifazer-se na boca, doce e salgado, umami abençoado, a textura dos camarões em tempura,


e a sapiência por detrás deste - só para os mais distraídos, simples - sashimi: a magia do produto no seu primor, bem escolhido, bem desmanchado, bem fatiado.



Ou este levemente braseado atum, o contraste entre a textura exterior e a interior, crocante e crú, os componentes de sabor quente da reacção com o calor e o frio da textura crua, tudo sublinhado pelos legumes.


E o inevitável makisushi.



Ah...

Restaurante TOMO
Av. Bombeiros Voluntários, 44
Algés
Tel.: 21 301 07 05
Almoços - 12:30/15:00 ; Jantares - 19:30/23:00
Encerra aos Domingos

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A very original dinner

Bastaria um haiku - fosse eu versado nessa suprema arte da síntese - para descrever esta refeição: um belo, concentrado e perfeito cristal de um belo, alongado e perfeito momento.


Traduziria a beleza, o deslumbramento, o requinte, a arte gastronómica no seu auge, reunindo o gosto, o olfacto, a visão, o tacto num ideal alinhamento, o cérebro todo iluminado pela provocação múltipla de tantos estímulos, talentosos estímulos, perfeitos estímulos.

Tomate frito com caldo dashi. Sem pele passado por fécula de batata depois deep fried em óleo. 
Cogumelos enoki, pimento japonês.
Olho grande enrolado em jicama base miso e iogurte
Imperfeito haiku porque, na sua justeza, na sua súmula, na sua justiça, seria incapaz de conseguir traduzir o desprendido e desusado gesto de dádiva que toda esta refeição consubstanciou. Declaração total de amizade. Porta escancarada ao coração.

Miso com ameijoas e mexilhão
Teria de procurar o barroco jeito, a profusão palavrosa em tentativa ousada de profusão literária para tornar palpável a catadupa de emoções sentidas então e ainda sentidas. O excesso para apresentar o essencial, a curva para representar a linha.

Sashimi - barriga de atum, olho grande, carapau, samão, polvo e lula

Cantaril em tempura

Como se pode construir tamanha matriz a partir de tão poucas variáveis?

Camarão de Espinho com molho de maçã e uvas olho de dragão




Olho grande grelhado com molho de nata
com acompanhamento de abóbora japonesa e cogumelos shimeji

Como se pode explodir o nosso mundo interior com tão pacífica construção?

Perdiz com raiz de lotus, cenoura, salsifis e topinambour


Ave Tomo, vivereturi te salutant.

Bolo de chocolate
Bolo de queijo com claras

domingo, 11 de novembro de 2012

As lojas do Mestre André (II) - Por esta rua acima...

Pela rua dos Cavaleiros há ainda um cheirinho da Lisboa criada pelos relegados do poder, moçárabes e muçulmanos, migrantes lusos e imigrantes alheios.

Pela rua dos Cavaleiros chega-se ao Sol de Alfama e do Castelo - tão lá no alto mas tão igualmente castiços.

A rua dos Cavaleiros é o rio por onde corre a Mouraria, à volta da qual corre a Mouraria, por detrás da qual se esconde a Mouraria.


Há a rua do Capelão da qual se quer fazer bandeira do fado e por onde se chega à pretensa casa de uma mitificada Severa ainda que, incongruentemente, se tenha, mesmo à sua ilharga, assassinado com uma recuperação uma das Ginginhas de Lisboa.


Mas a rua dos Cavaleiros!...


Prédios em solidariedade secular, apoiados no vizinho e na graça de todos os santos da cidade, fachadas decrépitas pela ausência de cuidados mas mais vivas que as mais vividas fachadas da cidade nova, encerrada das nove às cinco.

Montras que mexem, traços antigos, ocupantes novos.

Delícias antigas, delícias recentes que num beco se juntam, o sagrado e o profano: a fava rica do pregão tradicional e os novos pasteis, inventados para a glória de um bairro e a alegria dos novos turistas.




Ah, a fava rica. Confesso que, pelas receitas que li, sempre a julguei um guisado de favas. Aqui (e, aparentemente, no passado) não é. É uma queirosiana malga - profunda malga! - de sopa, rescendente, capaz de recuperar para o eficaz mundo do trabalho o mais desalentado guardador de sonhos da cidade.

Quanto aos pasteis, passem por lá e tragam uma caixinha. Amortecem-vos os gasparianos efeitos da contemporaneidade e são tão mais lisboetas que aquelas coisas cada vez mais cócós daqueles lados de Belém.


Ver Beco dos Cavaleiros num mapa maior

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

As lojas do Mestre André (I) - Inácios e Lopes



O André, incansável forrageiro destas lisboetas gemas, apresentou-a há uns dias, com um desnecessário pedido de frequência.

É uma daquelas lojas que - infelizmente, INFELIZMENTE, IN-FE-LIZ-MEN-TE! - já pouco se vêem, já pouco se usam, já tanto nos fazem falta.


São lojas de outras maneiras, personalizadas, com donos que permanecem ao balcão e ficam mais que felizes em partilhar o conhecimento de uma vida e poder trocar horas e horas de impressões com todos os curiosos que os frequentem.

E falar e dar a provar os seus queijos que não apresentam pergaminhos de família DOP mas têm raça, personalidade, orgulho e nos deixam de água na boca e com vontade de levar todos ao colo em corrida cuidada até à mesa mais próxima.











Ou dos presuntos, primos dos queijos - sem nome de família mas com família honesta, honrada e de excelsas qualidades-, de raça, de sabor, de textura  a deixar memória e a pedir por mais. Oh bacorinhos séniores, tão bem que a vossa mãe vos pariu e tão melhor que o vosso dono vos curou!...




Um mundo, um mundo ou um templo, de atmosfera tranquila e expositores flamejantes. De silenciosos ruídos e ruidosos olhares.

Desafios e promessas.

E um pedido com nota cada vez mais urgente: mantenham ilhas como esta vivas, passem por cá.



Ver Inácios e Lopes Lda. num mapa maior


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Inácios e Lopes Lda.
Rua Benformoso 202, 1100-087 LISBOA
Tel.: 218 863 273

sábado, 3 de novembro de 2012

Prazer meu, prazeres nossos

No prazer, há uma dimensão impartilhável, intraduzível em palavras e inconfirmável em correspondência que nos mantém numa redoma muitas vezes indesejada. Não sabemos se o outro nos percebe porque nunca conseguiremos descobrir se o que ele julga ter sentido em situações semelhantes é idêntico ou sequer da mesma ordem das nossas sensações.


E no entanto tentamos. Temos esperança que o sorriso cúmplice exprima uma realidade e não uma aspiração. Somos seres sociais e desesperadamente queremos pertencer e ser compreendidos.

Falamos e escutamos, rimos e trocamos olhares cúmplices à volta de uma mesa. Uma e outra vez descobrimos o bem que nos deixa este e aquele sabor, esta ou a outra textura, a surpresa ou a reconfortante confirmação e temos esperança que todos os companheiros dessa viagem sintam o mesmo, essa exaltação, esse bem estar - esse prazer.



Seja num cuidado, refinado, intelectualizado lugar gastronómico ou na mais terra-a-terra, descontraída, descomprometida casa de comer da cidade.


Lisboa guarda-nos momentos assim. De cidade-império, ponto de chegada, regaço de imigrantes de diásporas várias, portadores - agora como há seculos - de alimentos outros da nossa estranheza e curiosidade.






Basta-nos assim um punhado de convivas amigos e uma comum vontade de descobrir e de, com isso, abrir novas rotas de satisfação - somos um e muitos, muitos num só.







Convidados: salada de fetos, legumes salteados, salada de tofu salteado, lingueirão (mini), fígado, bucho de boi, tripa de vaca, tripa de porco, salada de alforreca, beringela, bambu com frango, tendão.

Convidantes: 15 desejos a cumprir

Restaurante Sen-Nom
Calçada da Mouraria