terça-feira, 9 de agosto de 2011

Casa da Ínsua, Restaurante e tudo

Edifício de notáveis, mergulhado no crepúsculo dos tempos modernos, notável recuperação de espaços, conservando tudo o que de extraordinário os sucessivos Albuquerque lhe foram acrescentando e adicionando o necessário para ali fazer nascer um projecto hoteleiro de referência, a Casa da Ínsua começa por ser uma dúvida, tapada que a quiseram pelas obras municipais de fachada.




(Em plena crise da dívida, visitar Peneda do Castelo é começar a perceber para onde foram os milhões comunitários - novas vias faraónicas pavimentadas a granito com passeios calçados igualmente a granito, edifícios de péssimo comportamento térmico - para além de uma muito freudiana morte do pai, encenada com a localização dos novos Paços do Concelho mesmo à frente de um dos portões da quinta senhorial.)

Sobrepõe-se-lhe a incredulidade: como conseguiram sobreviver estes espaços à debandada, ao empobrecimento, à desertificação, ao mau gosto novo-rico?






E, finalmente, fica o estar bem.

Estar bem, por exemplo, no espaço da antiga cozinha, com peças cujo uso se encontra apenas na memória dos mais velhos,






ou no restaurante.



Espaço amplo, sem atravancamento de mesas, vista tapada pelo muro de pedra que fecha o pequeno pátio ornado com parafernália militar de antanho, arvoredo espreitante em segundo plano. Bons atoalhados, bonitos talheres, copos adequados.



Duas refeições, na primeira experimentado o menu de degustação, a segunda em programa livre.

O menu foi uma revelação. A entrada, Figo enrolado em presunto com capucino de melão e espuma de peppermint resumiu a noite: composições visualmente apelativas, produtos de qualidade e conjugações bem conseguidas, numa mão que denota saber. Revisitação da tradicional combinação melão-presunto, com o primeiro em forma líquida a que o mentolado do peppermint acrescenta uma sugestão "exótica" que não cai mal. O figo - que figo! - é um companheiro que apetece recomendar em futuras núpcias.



Gostei da composição, o acentuar dos elementos principais com a redução e a vertical da haste, qual padrão a assinalar terra lusa, bem como a chávena do capucino em inversão de curvas (numa homenagem, provavelmente involuntária, mas a que aderi, a Niemeyer e às duas cúpulas da Câmara dos Deputados e do Senado do seu edifício do Congresso de Brasília).


Vinho branco Reserva, produzido na propriedade, Malvasia, Encruzado, Semillon,


proposta incluída no menu, a integrar-se muito bem com o prato seguinte, Sardinha enrolada sobre broa e cama de pimentos.


Visualmente interessante, mais uma proposta a incluir na vaga actual de reabilitação dos peixes considerados "menores", com dois pecadilhos, um exógeno, outro próprio: a sardinha ainda longe da riqueza de sabor que só o prolongar do tempo quente traz e o tempo exagerado de preparação dos pimentos. Parabéns pelo uso da sardinha mas o prato ainda precisa de afinação. As partes ainda não constituem um todo pleno, falta-lhe um pequeno aglutinador.


Intermezzo para limpar o palato com um gelado de lima delicioso. Nota máxima pela atenção ao pormenor, confecção e apresentação.

Passando ao segundo prato, Lombo de vitela em cama de legumes com cogumelos e batatas fritos em palitos, carne de elevada qualidade, muito bem confeccionada. Mais uma vez uma bonita composição. Ponto menos bom, o seu carácter canónico, depois do risco do prato de peixe e da criatividade da entrada.


Vinho tinto também da propriedade, o Reserva 2005, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Jaen. Aromas pouco frequentes, um sabor a deixar marca para além do bom casamento com a vitela, que apetece repetir mais um pouco e ainda um pouco mais.


Para terminar, Aletria doce com gelado de canela, compota de framboesa (também da propriedade) e lâminas de ananás. Diz quem o degustou que a combinação de texturas e sabores atinge um ponto alto.


Quanto a mim fiz uma pequena bêtise e desafiei o empregado a perguntar ao chef se aceitaria trocar a minha sobremesa pelo Risotto de cogumelos selvagens... E não é que a provocação foi aceite?


Gesto simpatiquíssimo pelo que me custa criticar mas... o apresentado foi mais malandrinho que risotto... Delicioso, os cogumelos nos píncaros e o todo a ficar-me na memória mas - e provavelmente na ânsia de não me fazer esperar muito por um prato feito fora de horas e da ordem - não era risotto.

Ficando a experiência na memória das coisas boas e apesar de todas as mesas a descobrir na região resolvemos repetir.

A noite começou com uma entrada cortesia do chef, um duo Salada de Búzios com rúcula selvagem / Rojões em cama de centeio.


Qualquer deles muito bom, os búzios deliciosos, sabor acentuado pelo pico da rúcula, os rojões longa e lentamente mijotados, a derreterem-se como convém quando degustados em sanduiche aberta.

O Arroz de Bacalhau com Filetes do mesmo, composição tradicional mas nem por isso isenta do risco de abastardamento, saiu muito bem, arroz bem temperado e os filetes sem exagerado tempo de fritura, lascantes na mordida, primorosos.


Para finalizar, Tornedó de Tamboril com tortilha de legumes, talvez a composição que menos me terá agradado. Tortilha saborosa e sapiente de fina, a aceitar bem o papel de acompanhamento, bom o toque rebelde da pimenta vermelha. Será o tamboril que precisa de uma outro modo de brilhar, será o casamento que, ao invés de marcar as sintonias, acentua as diferenças?


Quanto à sobremesa, sei que, desta vez, me esqueci das restrições e também eu a degustei. E, não sendo amante de doces o quanto sou de tudo o resto, fiquei rendido. O que não sei, porque também me esqueci, é o nome...



Serviço atento, disponível, simpático a merecer nota elevada.

Está recomendada então esta Casa? Recomendadíssima, pouso a considerar sempre que o uso do IP5/A25 esteja no horizonte!

Apreciação: Cozinha -  3.98/5 ; Global - 16.43/20

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